Descubra como um pequeno reino no planalto etíope se transformou numa das quatro maiores potências do mundo antigo graças ao controlo das rotas comerciais entre o Mediterrâneo, a Arábia e a Índia. Uma história de ouro, marfim, incenso e fé.
Entre os séculos I e VIII d.C., o Reino de Aksum – também chamado Império Axumita – dominou o comércio do Mar Vermelho e tornou-se o grande elo entre África, Roma, Pérsia, Índia e até a China. A sua capital, Aksum (hoje no norte da Etiópia), foi descrita pelos persas como uma das quatro maiores cidades do mundo, ao lado de Roma, Ctesifonte e Chang’an.
Origens: do planalto etíope ao controlo do Mar Vermelho
Os axumitas descendiam de populações semitas que migraram do sul da Arábia (atual Iémen) por volta do século X a.C., misturando-se com povos cushitas locais. Esta fusão cultural deu origem à língua ge’ez – ainda usada na liturgia da Igreja Ortodoxa Etíope – e a uma escrita própria que influenciou vários alfabetos da região.
Quando Roma anexou o Egito (30 a.C.), o comércio do Mar Vermelho explodiu. Aksum estava exatamente no lugar certo: controlava o porto de Adúlis (na atual Eritreia) e os caminhos que vinham do interior africano carregados de marfim, ouro, esmeraldas, obsidiana, escravos e animais exóticos.
“Os mercadores de Aksum traziam ouro e marfim e levavam seda, especiarias indianas e vinho romano. Nenhum reino africano antes deles teve tanto poder marítimo.”
— Cosmas Indicopleustes, mercador grego do século VI
O auge comercial: o século I ao IV d.C.
Produtos exportados por Aksum
- Marfim (presas de elefante em quantidades industriais)
- Ouro do interior da atual Sudão e Etiópia
- Incenso e mirra (recolhidos na região de Punt)
- Rinoceronte (chifres e peles)
- Tartarugas (casco para objetos de luxo)
- Obsidiana
- Escavos e macacos vivos para os zoológicos romanos
Produtos importados
- Tecidos e vidro romano
- Metais (ferro, cobre, bronze)
- Vinho e azeite do Mediterrâneo
- Seda e especiarias da Índia via porto de Adúlis
O rei Ezana (c. 330–360 d.C.) deixou estelas gigantes (algumas com mais de 30 metros) que ainda hoje estão de pé em Aksum. A maior delas pesa 520 toneladas – maior que qualquer obelisco egípcio transportado inteiro. Estas estelas eram símbolos de poder, mas também “recibos” do comércio: quanto maior a estela, mais rico o rei.
Aksum e as grandes rotas comerciais da Antiguidade
O reino controlava três grandes eixos:
- Rota terrestre transaariana que ligava o Nilo ao Chade (ver as rotas comerciais transaarianas)
- Rota do Mar Vermelho – o verdadeiro “ouro líquido” de Aksum
- Rota do Oceano Índico até à Índia e Sri Lanka (as rotas comerciais do Oceano Índico)
O Periplo do Mar Eritreu (guia comercial romano do século I) menciona Adúlis como um dos portos mais movimentados do mundo antigo. Os navios axumitas usavam o vento monçônico para ir e voltar da Índia em menos de um ano – tecnologia que os romanos invejavam.
A moeda de ouro que desafiou Roma
Por volta do ano 270 d.C., Aksum tornou-se o primeiro reino subsariano a cunhar moedas de ouro com padrão internacional. As moedas de ouro de Ouro de Aksum circulavam em Roma, na Pérsia e na Índia, concorrendo diretamente com o áureo romano. Algumas moedas do rei Endubis (c. 270–300) ainda trazem a inscrição em grego: “ΒΑΣΙΛΕΥΣ ΑΞΩΜΙΤΩΝ” – “Rei dos Axumitas”.
Este facto é extraordinário se lembrarmos que, na mesma época, nenhum outro reino africano ao sul do Saara cunhava moeda metálica.
A conversão ao cristianismo e o comércio
Em 330 d.C., o rei Ezana converteu-se ao cristianismo – tornando Aksum o segundo Estado oficialmente cristão do mundo (após a Arménia). A nova fé não acabou com o comércio pagão com a Índia e a Arábia, mas abriu portas para Bizâncio. A Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo nasce aqui – e sobrevive até hoje.
O cristianismo axumita também facilitou a entrada de artesãos bizantinos que ajudaram a construir as famosas igrejas escavadas na rocha de Lalibela séculos mais tarde.
O declínio: quando o comércio muda de mãos
A partir do século VII, três fatores abalaram Aksum:
- Ascensão do Islão e controlo árabe do Mar Vermelho
- Mudanças climáticas que desertificaram partes do planalto
- Ascensão do reino de Zagwe e deslocamento do centro de poder para o interior
Mesmo assim, o legado comercial sobreviveu: a Etiópia nunca foi colonizada e manteve a sua escrita, calendário e liturgia desde o século IV.
Por que Aksum ainda importa hoje
- Foi o primeiro grande Estado africano a projetar poder marítimo para lá do continente.
- Demonstrou que a África antiga não era “isolada” – era, pelo contrário, o centro de uma rede global.
- Provou que riqueza e sofisticação tecnológica não eram exclusivas do Mediterrâneo ou da Ásia.
Se gostaste deste mergulho no Reino de Aksum – a influência do comércio, deixa-me sugerir outros artigos relacionados:
- O reino de Axum: comércio e cristianismo
- As conquistas marítimas do reino de Axum
- A civilização axumita e sua importância
- Os mistérios do império axumita
- Grandes rotas de comércio da Antiguidade
Perguntas Frequentes
1. Aksum era mais rico que o Egito antigo?
Não em território, mas em certos momentos do século III–IV, Aksum exportava mais ouro que o Egito ptolemaico tardio. A diferença é que a riqueza axumita vinha do comércio, não de tributos internos.
2. Os axumitas chegaram à Índia?
Sim. Moedas de Aksum foram encontradas em portos indianos do Tamil Nadu e do Gujarat, e cerâmica indiana foi escavada em Adúlis.
3. Porque quase ninguém fala de Aksum nas escolas?
Porque a narrativa eurocêntrica da História Antiga foca Roma, Grécia, Pérsia e China. Aksum ficava “fora do mapa” europeu até ao século XIX.
4. As estelas de Aksum são pirâmides?
Não. São obeliscos monolíticos talhados num único bloco de pedra, usados como marcadores funerários reais. A maior ainda de pé tem 24 m; a que caiu tem 33 m.
5. Ainda existe descendência axumita hoje?
Sim. A Igreja Ortodoxa Etíope, a língua litúrgica ge’ez, o calendário etíope (7–8 anos atrás do gregoriano) e muitas tradições da região de Tigray são herança direta.
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