Explore a figura fascinante de Tot (Thoth), o deus ibis da sabedoria, da escrita e da magia no Antigo Egito, e descubra por que o vizir – o mais alto funcionário do faraó – era visto como sua encarnação viva na Terra.

No panteão egípcio, poucos deuses possuem um papel tão central na ordem cósmica e política quanto Tot (em egípcio antigo Djehuty). Conhecido como senhor da escrita, da lua, da matemática, da magia e da verdade, Tot era descrito nos textos sagrados como “o coração de Rá” (o pensamento divino) e “a língua de Rá” (a palavra criadora que manifesta a vontade do deus-sol).

Era exatamente esta mesma metáfora que os egípcios usavam para definir o cargo de vizir (tjaty), o primeiro-ministro do faraó: ele era o coração pensante e a língua executora do rei, que, por sua vez, era a manifestação terrena de Rá/Hórus. Assim, o vizir não era apenas um administrador – era o Tot humano, o guardião da Maat (ordem, justiça e verdade) no palácio e no país.

Quem Foi Tot e Por Que Era Tão Importante?

Tot surge já nos Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) como o escriba dos deuses e mediador entre as forças do caos e da ordem. Representado como íbis ou como babuíno, ou ainda como homem com cabeça de íbis segurando o cálamo e a paleta de escriba, ele era o patrono de todos os que lidavam com a palavra escrita – a ferramenta mais poderosa do Egito Antigo.

Nos famosos “Livros do Além” (Livro dos Mortos, Livro das Portas, Livro do Amduat), é Tot quem registra o resultado da pesagem do coração do falecido contra a pena da Maat. Ele é, portanto, o garante da justiça cósmica e terrena.

“Eu sou Tot, o senhor das leis divinas, aquele que separa as duas combatentes [Ísis e Seth], aquele que acalma o coração de Rá.”
— Hino a Tot, Templo de Edfu

Se quiser aprofundar a mitologia egípcia, recomendo ler o artigo completo sobre a religião e mitologia dos egípcios e as crenças religiosas no Egito e as práticas religiosas e crenças.

O Vizir Como “Tot Vivo” – A Metáfora Política Suprema

A partir do Império Antigo (c. 2686–2181 a.C.), o vizir recebia títulos que o identificavam diretamente com o deus:

  • “Coração de Rá” → inteligência estratégica
  • “Língua de Rá” → porta-voz oficial do faraó
  • Olhos do rei do Alto Egito, ouvidos do rei do Baixo Egito”
  • Sacerdote de Maat”

Imhotep, o lendário vizir e arquiteto de Djoser (III Dinastia), foi o primeiro a ser deificado em vida e, séculos depois, identificado com Tot. Ptahhotep, vizir da V Dinastia, deixou as famosas “Máximas” onde aconselha: “Sê um escriba, teu corpo estará bem alimentado, tua boca será o coração do rei”. A própria tumba de Rekhmire (vizir de Tutmés III) mostra-o sentado com a paleta de escriba, exatamente como Tot, recebendo os tributos dos povos estrangeiros.

Se quiser conhecer mais sobre a administração e a sociedade do Egito Antigo, veja a sociedade e a cultura do antigo Egito e os sistemas políticos e governamentais.

A Dupla Face de Tot: Sabedoria e Magia

Tot não era apenas o deus “bonzinho” dos escribas. Ele era também Heka personificado – a própria magia. Nos textos mágicos, é ele quem ensina Ísis os encantamentos que ressuscitam Osíris. É ele quem escreve os nomes secretos que dão poder sobre todas as coisas.

O vizir, por sua vez, era o maior mago do reino: os selos reais, os decretos, as cartas diplomáticas saíam da sua pena. Quem controlava a palavra escrita controlava a realidade – exatamente como Tot.

Tot e a Origem Africana da Escrita e do Conhecimento

O culto a Tot tem raízes muito mais antigas do que o próprio Egito dinástico. Alguns investigadores ligam-no a tradições lunares e de contagem do tempo que remontam à pré-história africana, talvez até ao vale do Nilo médio e ao Sudão antigo (reino de Kush). A própria escrita hieroglífica – considerada “palavras dos deuses” (medu-netjer) – era vista como um presente direto de Tot à humanidade.

Para quem gosta de explorar essas conexões profundas, vale a pena ler África: o berço da humanidade e a evolução da inteligência humana na África.

A Herança de Tot Fora do Egito

Quando os gregos chegaram ao Egito, identificaram Tot com o seu Hermes, criando o mítico Hermes Trismegisto (“três vezes grande”), figura central da filosofia hermética e da alquimia medieval europeia. Assim, o deus-ibis africano acabou por influenciar o pensamento ocidental, islâmico e até a maçonaria.

Tot na Cultura Atual

Hoje, Tot continua vivo em logotipos de universidades egípcias, em símbolos de faculdades de Direito e em dezenas de obras de ficção (de Stargate a American Gods). No entanto, poucos sabem que a sua origem é profundamente africana e que o título de “coração e língua de Rá” foi usado durante 3000 anos para definir o homem mais poderoso depois do faraó.

Perguntas Frequentes sobre Tot e o Vizir

P: Tot e Thoth são o mesmo deus?
R: Sim. “Tot” é a pronúncia mais próxima do egípcio antigo Djehuty; “Thoth” é a versão grega.

P: Algum vizir foi realmente deificado como Tot?
R: Sim. O caso mais famoso é Imhotep, vizir de Djoser, que se tornou deus da medicina e foi sincretizado com Tot.

P: As mulheres também podiam ser “Tot” (vizir)?
**R: Não oficialmente, mas rainhas como Hatshepsut exerciam o poder do vizir e eram retratadas com os mesmos atributos de Tot.

P: Onde posso ver imagens de Tot associado a vizires?
R: Na tumba TT100 de Rekhmire (Vale dos Nobres, Luxor) e nas estátuas de Imhotep em Saqqara.

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Maat em equilíbrio, vida longa e próspera! 🪶✨