Descubra como estes quatro homens, movidos pela fé e pela curiosidade, documentaram povos, línguas e geografias do sul da África no século XIX – com David Livingstone a tornar-se a figura mais icónica da exploração africana.
A África do século XIX era ainda um continente largamente desconhecido para os europeus. Mapas incompletos, rumores de terras inóspitas e histórias de tribos guerreiras alimentavam tanto o medo como a fascinação. Foi neste contexto que missionários protestantes, muitos deles enviados por sociedades como a London Missionary Society e a Société des Missions Évangéliques de Paris, se aventuraram no interior do continente. Entre eles destacam-se Robert Moffat, Eugène Casalis, Thomas Arbousset e, claro, David Livingstone – nomes que combinaram evangelização com exploração científica e etnográfica.
Estes homens não foram apenas pregadores: foram linguistas, cartógrafos, etnógrafos e, por vezes, mediadores políticos. As suas obras escritas – diários, livros de viagem, traduções da Bíblia – abriram portas ao conhecimento europeu sobre o sul da África e influenciaram profundamente a percepção do continente. Embora hoje sejam figuras controversas pelo seu papel no prelúdio do colonialismo, o seu contributo documental permanece inegável.
Quem Foi Robert Moffat?
Robert Moffat (1795–1883) é frequentemente considerado o pioneiro dos missionários no sul da África. Escocês de origem humilde, chegou ao Cabo em 1816 e, após anos de trabalho entre os khoikhoi, estabeleceu a missão de Kuruman, no atual Botsuana, em 1820. Ali viveu mais de 50 anos, tornando-se fluente em tswana (sechuana) e traduzindo a Bíblia completa para esta língua – uma façanha monumental na época.
Moffat não se limitou à evangelização. Descreveu detalhadamente a vida dos povos tswana, as suas estruturas sociais e as rotas comerciais do interior. O seu livro Missionary Labours and Scenes in Southern Africa (1842) tornou-se um best-seller na Europa, despertando interesse pelo continente. Foi Moffat quem inspirou diretamente o genro, David Livingstone, a viajar para África.
Para saber mais sobre as primeiras civilizações da África e como os povos autóctones já possuíam organizações complexas antes da chegada europeia, explore este artigo.
Eugène Casalis e Thomas Arbousset: Os Missionários Franceses entre os Basotho
Enquanto Moffat trabalhava no território que viria a ser o Botsuana, dois missionários franceses da Société des Missions Évangéliques de Paris – Eugène Casalis (1812–1891) e Thomas Arbousset (1810–1877) – dirigiram-se ao reino dos basotho, no atual Lesoto.
Chegados em 1833 a convite do rei Moshoeshoe I, Casalis e Arbousset fundaram a missão de Morija. Casalis, em particular, tornou-se conselheiro do rei, ajudando na diplomacia com boers e britânicos. Os dois missionários aprenderam sesotho, traduziram textos religiosos e documentaram minuciosamente a cultura basotho.
A obra conjunta Relation d’un voyage d’exploration au nord-est de la colonie du Cap de Bonne-Espérance (1840), de Arbousset e François Daumas, descreve viagens pelo interior, incluindo contactos com povos zulu e ndebele. Casalis publicou Les Bassoutos (1859), um estudo etnográfico profundo que permanece referência até hoje.
Estes missionários mostraram que a evangelização podia andar de mãos dadas com a preservação cultural – embora, paradoxalmente, contribuíssem para a erosão gradual das tradições. Se quiser aprofundar o tema das influências culturais entre os povos, temos um artigo dedicado.
David Livingstone: O Mais Conhecido de Todos
David Livingstone (1818–1873) é, sem dúvida, o nome mais famoso desta lista. Médico, missionário e explorador escocês, Livingstone chegou à África em 1841, influenciado diretamente por Robert Moffat, cujo genro viria a ser.
Ao contrário de muitos missionários que se fixavam numa estação, Livingstone optou por viagens constantes. A sua ambição era tripla: evangelizar, combater o tráfico de escravos e explorar o interior. Entre 1852 e 1856 realizou a célebre travessia transcontinental, do Luanda (Angola) ao Quelimane (Moçambique), descobrindo as quedas Vitória (que batizou em honra da rainha britânica).
Livros como Missionary Travels and Researches in South Africa (1857) venderam dezenas de milhares de exemplares e transformaram Livingstone numa celebridade. As suas descrições dos rios Zambeze e Congo, dos povos makololo e lunda, e a sua campanha contra a escravatura árabe influenciaram a opinião pública europeia.
A famosa busca por Livingstone, liderada por Henry Morton Stanley em 1871 (“Dr. Livingstone, I presume?”), tornou-o um ícone da era vitoriana. Morreu em 1873 na atual Zâmbia, procurando as nascentes do Nilo.
Para compreender melhor o contexto das grandes explorações científicas do século XIX, consulte este artigo no nosso site.
A Contribuição Comum: Documentação e Legado
Apesar das diferenças – Moffat mais sedentário e linguista, Casalis diplomata, Arbousset explorador, Livingstone aventureiro – estes quatro homens partilhavam traços comuns:
- Domínio de línguas locais: Todos aprenderam e documentaram idiomas africanos, contribuindo para a linguística.
- Registros etnográficos: Descreveram costumes, organização social e crenças, muitas vezes com empatia rara para a época.
- Cartografia: Mapearam regiões desconhecidas, facilitando posteriores expedições – e, infelizmente, a colonização.
- Luta contra a escravatura: Especialmente Livingstone, mas também os outros denunciaram o tráfico interno.
O seu trabalho abriu caminho ao “Scramble for Africa”. As descrições detalhadas alimentaram o apetite colonial, mas também preservaram conhecimento sobre povos que, décadas depois, sofreriam profundas transformações.
“A África não era uma terra vazia à espera de ser civilizada. Era um continente de reinos, cidades e rotas comerciais complexas – algo que estes missionários, apesar das suas limitações culturais, ajudaram a revelar.”
Se está interessado nas rotas comerciais transaarianas que já ligavam o continente muito antes dos europeus, recomendamos este artigo.
Controvérsias e Visão Crítica Atual
Hoje, estes missionários são vistos de forma ambivalente. Embora tenham documentado culturas em risco, também participaram num projeto civilizacional que justificou a colonização. Livingstone, por exemplo, defendia o “comércio legítimo” como alternativa à escravatura – comércio esse que viria a ser explorado pelas potências coloniais.
A sua visão paternalista dos africanos reflete os preconceitos da época. Ainda assim, o seu trabalho documental permanece valioso para historiadores africanos que reconstroem narrativas autónomas.
Para uma perspetiva crítica sobre o papel dos missionários europeus, veja este texto detalhado.
Perguntas Frequentes
Quem foi o primeiro destes missionários a chegar ao interior da África Austral?
Robert Moffat, que estabeleceu a missão de Kuruman em 1820, foi o pioneiro.
David Livingstone converteu muitos africanos ao cristianismo?
Surpreendentemente poucos. Livingstone priorizou a exploração e a luta contra a escravatura. As conversões em massa vieram depois, com outras missões.
Os livros destes missionários ainda são lidos hoje?
Sim, especialmente em estudos históricos e antropológicos. Obras como Missionary Travels de Livingstone ou Les Bassoutos de Casalis são fontes primárias valiosas.
Qual a relação familiar entre Moffat e Livingstone?
Livingstone casou-se com Mary Moffat, filha de Robert Moffat, em 1845.
Estes missionários apoiavam a colonização?
Não diretamente. Defendiam a “civilização” através do cristianismo e comércio, mas muitos criticaram os excessos dos colonos boers e, mais tarde, das potências imperiais.
Onde posso encontrar mais sobre a resistência africana à penetração missionária e colonial?
Consulte o nosso artigo sobre resistência africana contra colonização.
Convite à Exploração
Robert Moffat, Eugène Casalis, Thomas Arbousset e David Livingstone foram mais do que missionários: foram os primeiros “jornalistas” europeus do interior africano. As suas palavras e mapas ajudaram a desmistificar o continente, mas também prepararam o terreno para a partilha colonial.
A história da África, porém, não começa nem termina com eles. Começa muito antes, no berço da humanidade, com os primeiros passos da humanidade, e continua hoje com novas narrativas africanas.
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