Explorando as origens, a riqueza e o legado do primeiro grande Estado da África Ocidental medieval – o verdadeiro “país do ouro” que deslumbrou o mundo árabe e deixou marcas até hoje.
Entre os séculos III e XIII d.C., quando a Europa ainda vivia a Alta Idade Média fragmentada, nasceu na África Ocidental um dos Estados mais ricos e organizados da história da humanidade: o Reino de Gana. Não confunda com o atual país de Gana – o reino antigo ficava mais a norte, entre os atuais Mali e Mauritânia, na região do Sahel, controlando as cabeceiras dos rios Senegal e Níger.
Chamado pelos árabes de “Bilad al-Sudan” (terra dos negros) e pelos seus próprios habitantes de Wagadu, o Reino de Gana foi o primeiro grande império comercial transaariano e o modelo que inspiraria diretamente os futuros Império do Mali e Songhai.
As Origens Míticas e Históricas do Reino
A tradição oral soninquê (povo fundador) conta que o reino foi fundado por Dinga Cissé, um chefe vindo do leste, mas os arqueólogos apontam para um processo mais longo. Já no século III d.C., as populações berberes e soninquê da região de Aoudaghost e Koumbi Saleh começaram a organizar-se em torno do controlo das minas de ouro de Bambuk e Bure.
“O rei enfeita-se como uma mulher com colares de ouro e trança o cabelo com fios de ouro… Possui um palácio e várias casas em forma de cúpula… A cidade tem uma mesquita e os muçulmanos são muito respeitados.”
– Al-Bakri, geógrafo árabe, 1068 d.C.
Este testemunho de Al-Bakri mostra-nos um Estado já sofisticado Estado no século XI. Mas como chegou lá?
Da Pré-História à Formação do Estado
Tudo começou muito antes. A região do Sahel foi habitada desde a pré-história africana, com caçadores-coletores que domesticaram o sorgo e o milhete ainda na revolução neolítica africana. Com a desertificação progressiva do Saara (cerca de 3000 a.C.), os povos foram empurrados para sul e começaram a dominar a metalurgia do ferro – tecnologia que chegou à África subsaariana antes da Europa.
A combinação ferro + agricultura + ouro criou as condições perfeitas para o surgimento de chefias poderosas. Por volta do século IV-V d.C., os Soninquê já controlavam as rotas entre o ouro do sul (floresta) e o sal do norte (Saara). Foi sobre esta base económica que nasceu Wagadu.
A Estrutura Política e Social do Reino de Gana
O reino era uma monarquia divina. O rei chamava-se Ghana (ou Gana), que significa “chefe guerreiro”, e o título passou a designar o próprio reino para os estrangeiros. O soberano era visto como semi-divino; quando morria, era enterrado num tumulus com servos e objectos preciosos – prática que lembra as práticas funerárias na pré-história.
A sociedade era hierárquica:
- Rei e família real
- Nobres e chefes de clã
- Guerreiros profissionais (com cavalaria)
- Camponeses livres soninquê
- Artesãos (especialmente ferreiros)
- Comerciantes (muitos muçulmanos diúla ou uangara)
- Escravos (prisioneiros de guerra)
As mulheres exerciam poder real: rainhas-mães, princesas comerciantes e até regentes. A matrilinearidade era forte entre os Soninquê.
A Riqueza Que Fez o Mundo Falar: Ouro e Sal
O comércio transaariano foi o motor do reino. O ouro vinha das minas de Bambuk e Bure; o sal das minas de Taghaza e Taoudenni. Um grama de ouro valia um grama de sal – literalmente.
As caravanas podiam ter até 10 mil camelos. Os mercadores berberes e depois árabes atravessavam o Saara carregando sal, tecidos, cavalos e livros, voltando com ouro, marfim e escravos.
Al-Bakri conta que o rei possuía uma pepita de ouro tão grande que amarrava nela o cavalo. Verdade ou exagero árabe? O certo é que o ouro de Gana inundou o Mediterrâneo e chegou até à Índia e China. Moedas cunhadas em Córdoba e no Cairo tinham ouro ganense.
Se queres saber mais sobre estas rotas comerciais transaarianas, vale a pena ler este artigo detalhado.
Koumbi Saleh – A Capital de Duas Cidades
A capital, Koumbi Saleh, era na realidade duas cidades geminadas separadas por 10 km:
- A cidade real soninquê – com o palácio, templos animistas e o bosque sagrado.
- A cidade muçulmana – com 12 mesquitas, bairros de mercadores árabes e norte-africanos, juristas e escribas.
Esta dualidade mostra a tolerância religiosa impressionante para a época. O rei mantinha a religião tradicional mas protegia os muçulmanos porque… bem, eram eles que traziam o comércio.
Religião e Cultura
A religião tradicional era animista, centrada no culto dos antepassados e na serpente Bida – um espírito que, segundo a lenda, exigia todos os anos uma virgem para fazer chover. Conta a tradição que, quando um herói matou a serpente, o reino entrou em declínio (curiosamente coincide com a chegada dos Almorávidas…).
O Islão chegou pacificamente através dos comerciantes. No século XI já havia uma elite muçulmana influente, mas a conversão total só aconteceria séculos depois, com o Mali.
O Apogeu (séculos VIII–XI)
No tempo do rei Tunka Manin (1062–1076), o reino atingiu o máximo esplendor. Ibn Hawqal e Al-Bakri descrevem exércitos de 200 mil homens (número provavelmente exagerado), tesouros fabulosos e um sistema de impostos sofisticado.
O reino controlava:
- Minas de ouro de Bambuk e Bure
- Comércio de sal de Idjil e Taghaza
- Rotas para Audaghost, Sijilmassa, Tlemcen e Tahert
- Tributo sobre povos vizinhos
O Declínio e a Queda
Em 1076–1077, os Almorávidas, movimento berbere puritano do norte, invadiram o reino. A versão clássica dizia que destruíram tudo. Hoje os historiadores são mais cautelosos: parece ter havido conquista militar, mas o reino sobreviveu enfraquecido.
O golpe de misericórdia veio com a ascensão dos Sosso de Sumanguru Kanté no século XIII e, sobretudo, com a fundação do Império do Mali por Sundiata Keita em 1235.
Legado do Reino de Gana
Mesmo após a queda, o nome “Gana” continuou a ser sinónimo de riqueza. Quando o atual país se tornou independente em 1957, escolheu o nome “Gana” exatamente para evocar este glorioso passado.
O reino provou que a África Ocidental tinha Estados centralizados, exércitos poderosos, comércio internacional e cultura sofisticada muito antes do contacto europeu – destruindo o mito do “continente sem história”.
Perguntas Frequentes sobre o Reino de Gana
P: O Reino de Gana tem relação com o país atual Gana?
R: Não diretamente. O reino antigo ficava 800 km a norte. O nome foi adotado em 1957 como símbolo de grandeza histórica.
P: Os reis de Gana eram muçulmanos?
R: Não. Os reis mantiveram a religião tradicional soninquê. Apenas parte da elite administrativa e os comerciantes se converteram.
P: Quanto ouro tinha realmente o reino?
R: Estima-se que entre os séculos VIII e XI o reino exportava cerca de 4–8 toneladas de ouro por ano – quantidade que desvalorizou o metal no Cairo em 20–30 % sempre que chegava uma grande caravana.
P: Porque caiu o reino?
R: Combinação de fatores: invasão almorávida, mudanças climáticas que afetaram a agricultura, ascensão de novos centros de poder (Sosso e Mali) e dispersão das rotas comerciais.
P: O que resta hoje do Reino de Gana?
R: As ruínas de Koumbi Saleh (Mauritânia) e as tradições orais dos griots. O espírito do reino sobrevive na arquitetura sudanesa, na organização política dos mandingas e na memória coletiva.
Quer saber mais?
- Como o ouro de Gana chegou à Europa medieval → O comércio de ouro e sal no oeste
- A continuação direta: A ascensão e queda do Império de Mali
- A figura lendária que derrotou os Sosso e fundou Mali → Mansa Musa – o homem mais rico da história
- A influência islâmica nos reinos sudaneses → Islã transformou a África na Idade Média
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Porque a verdadeira história da África ainda está a ser escrita – e nós estamos aqui para a contar.
Até ao próximo artigo! 🦁








