“Eu sou Osíris Onnophris, o Justificado, Senhor da Eternidade. Eu sou o que foi, o que é e o que será.”
– Texto das Pirâmides, Utterance 219 (adaptado
Osíris não é apenas um deus egípcio. É, antes de mais, um deus africano – nascido no coração do continente que hoje sabemos ser o berço da humanidade. Chamado pelos seus sacerdotes mais antigos de Wsir-Anu (“Osíris, o Anu” ou “o Alto/Bom”), o seu nome liga-o diretamente às populações negras do Alto Nilo e do vale do Nilo interior, os verdadeiros criadores da mais antiga e duradoura espiritualidade organizada do planeta.
Este artigo mergulha fundo na identidade africana de Osíris, na sua relação eterna com Isis, na surpreendente origem do seu epíteto “o Anu” e na forma como este deus continua vivo na memória coletiva de África – desde o Antigo Egito até aos dias de hoje.
Quem foram os “Anu”? A raiz negra de Osíris
O termo Anu (ou Aunu) aparece nos Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) como um dos nomes mais antigos de Osíris. Não é coincidência.
Os Anu eram um povo proto-histórico do Alto Nilo, considerados pelos próprios egípcios como os “primeiros habitantes divinos” da terra sagrada. Eram descritos com pele negra, cabelo crespo e traços que hoje associamos às populações nilóticas (dinka, nuer, shilluk, etc.).
“Os Anu vieram do país de Ta-Seti (Terra do Arco), a sul, trazendo consigo o culto do deus que morre e renasce.”
– Inscrição de Unis, Pirâmide de Unis
Estes Anu são os mesmos que deram origem à cultura de Ta-Seti e ao reino de Kush, como já exploramos em O Reino de Kush – o Egito Antigo e As riquezas do Reino de Kush – ouro. Quando os egípcios falam de Osíris-Anu, estão a reconhecer que o seu deus supremo tem raízes negras meridionais.
Osíris e Isis: o casal primordial africano
Nenhuma história de Osíris faz sentido sem Isis (Aset). Ela é a sua irmã-esposa, a grande maga, a que recompõe o corpo despedaçado e concebe Hórus – o herdeiro legítimo.
Mas Isis também tem origem meridional. O seu centro de culto mais antigo foi em Abu (Elefantina) e, sobretudo, em Philae, já na fronteira com a Núbia. Os sacerdotes núbios/kushitas chamavam-lhe Ast-Mehit (“Isis do Norte”) porque, para eles, ela vinha do sul, da terra dos Anu.
“Isis, a grande, mãe de deus, senhora de Philae, que protege o seu irmão Osíris-Anu com as suas asas.”
– Hino de Philae, período ptolomaico
Se quiser aprofundar a força feminina na espiritualidade africana antiga, veja também As mulheres poderosas da antiguidade e O papel da mulher na sociedade antiga.
A morte e ressurreição – o ciclo agrícola negro-africano
O mito de Osíris é, em essência, o ciclo da cheia do Nilo e da agricultura. Mas esse ciclo não começou no Delta. Começou no Sudão atual, onde as cheias eram mais violentas e a terra negra (kemet) mais fértil.
Os povos Anu/Ta-Seti já praticavam agricultura intensiva milhares de anos antes do Egito dinástico. Quando Osíris “morre” (o grão é enterrado) e “renasce” (o grão germina), estamos diante de uma metáfora que vem diretamente das savanas e vales do atual Sudão e Etiópia – exatamente o mesmo território onde encontramos os fósseis africanos que desafiaram a história e onde a evolução humana começou.
Osíris na Núbia e em Kush: o deus negro por excelência
Quando o Egito dominou Kush, Osíris continuou a ser adorado – mas com rosto negro e coroa alta núbia. Nos templos de Napata e Meroé, ele aparece como Asar-Nubti (“Osíris do Ouro”). Os reis kushitas consideravam-se reencarnações de Hórus e, após a morte, tornavam-se Osíris.
Nos relevos de Kawa e Musawwarat es-Sufra, Osíris tem pele negra profunda – exatamente como os reis kushitas se representavam. Não era simbolismo: era afirmação de identidade.
Leia mais sobre isso em A arte e arquitetura da antiga Núbia e O Reino de Kush e sua relação com o Egito.
Osíris em toda a África: sobrevivências espantosas
O culto de um deus que morre e renasce, cujo corpo é recomposto pela esposa-irmã, cujo filho vingador derrota o caos, repete-se em dezenas de etnias africanas:
- Entre os Akan (Gana/Costa do Marfim) – Nyame morre e a sua esposa Asase Yaa recompõe o mundo.
- Entre os Dogon (Mali) – Amma e a ressurreição do Nommo.
- Entre os Yoruba (Nigéria/Benim) – Orixá Oxóssi / Odé e, sobretudo, a ligação de Obaluaê-Omolu com a morte e cura, que alguns investigadores ligam a Osíris.
- Entre os Fon (Benim) – Legba e Mawu-Lisa.
Estes paralelos não são coincidência. São memória viva de uma espiritualidade nilótica que se espalhou com as migrações bantu e outras ondas populacionais.
Osíris e o nome “Anu” nos dias de hoje
Em copta (a última fase da língua egípcia antiga), Osíris ainda se chamava Ousire. Entre os núbios modernos do Sudão, o nome Anu sobrevive em topónimos e nomes de família. E na língua nuer (Sudão do Sul) “Anu” significa simplesmente “povo antigo” ou “ancestrais”.
Ou seja, quando os sacerdotes de Mênfis ou Tebas chamavam a Osíris “o Anu”, estavam a dizer, literalmente: “o Deus dos Ancestrais Negros do Sul”.
Perguntas Frequentes sobre Osíris-Anu
P: Osíris era negro?
R: Nas representações mais antigas (Dinastia I–III) ele aparece com pele verde (símbolo de renascimento) ou negra (símbolo da terra fértil do Alto Nilótica). Nos templos núbios e meroíticos é sistematicamente negro. Portanto, sim – a sua iconografia mais antiga e mais meridional é negra.
P: “Anu” é o mesmo que os Anunnaki sumérios?
R: Não. É pura coincidência fonética. Anu/Anunnaki é uma divindade semita da Mesopotâmia. Os Anu egípcios são um povo histórico africano do Alto Nilo.
P: Isis também era considerada negra?
R: Sim. Em Philae e Dendur é representada com pele negra ou vermelho-escura, exatamente como as mulheres núbias. O epíteto “a Grande, de pele negra” aparece várias vezes.
P: O mito de Osíris influenciou o cristianismo?
R: Sim, fortemente. A morte na cruz/sexta-feira, descida ao mundo dos mortos, ressurreição ao terceiro dia, mãe virgem com filho nos braços – tudo isso já existia no ciclo Osíris-Isis-Hórus mil e quinhentos anos antes.
P: Onde posso ver Osíris negro hoje?
R: Nos museus de Cartum (Sudão), no Museu Nacional do Sudão) e em Assuão (Museu Núbio). E, claro, nas milhares de estátuas e relevos de templos como Kalabsha, Dakka e Philae.
Osíris não “veio” para África. África é que o gerou.
Osíris-Anu é o testemunho vivo de que a mais poderosa história de morte e ressurreição da humanidade não nasceu no Médio Oriente nem na Grécia – nasceu no coração negro de África, entre povos que já cultivavam a terra, conheciam a escrita e construíam pirâmides quando o resto do mundo ainda vivia em cavernas.
Hoje, quando alguém no Brasil, em Cuba ou no Haiti dança para Oxum, Obaluaê ou Iemanjá, está, sem saber, a continuar o culto da mesma Isis que recompôs o corpo do seu irmão Osíris-Anu há mais de 5 000 anos.
Porque África não é apenas o berço da humanidade (Primeiro continente da humanidade). É também o berço das ideias que ainda hoje nos governam a alma.
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E diga-nos nos comentários: sabia que Osíris era chamado “o Anu” e que isso significava “o Deus Negro do Sul”?
A história verdadeira de África está apenas a começar a ser contada. Vamos contá-la juntos.
Kemet ibé! África sempre! 🌍✨








