Descubra como as mulheres africanas foram rainhas, guerreiras, sacerdotisas, comerciantes e guardiãs da linhagem muito antes do feminismo moderno ser sequer imaginado.
A história oficial da África antiga costuma destacar faraós, imperadores e grandes reis. Mas atrás (e muitas vezes à frente) deles estavam mulheres de poder extraordinário. Desde o Vale do Nilo até aos reinos da África Ocidental e Oriental, elas governaram, comandaram exércitos, controlaram o comércio, detiveram o poder religioso e definiram a transmissão de riqueza e autoridade. Este artigo mergulha fundo nesse universo muitas vezes silenciado.
Das Origens Pré-Históricas: A Mulher como Pilar da Sobrevivência
Já na pré-história africana, a divisão de trabalho entre caçadores-coletores dava às mulheres um papel central. Elas eram responsáveis pela recolha de 60-80% dos alimentos em muitas sociedades, conheciam plantas medicinais e controlavam o fogo e a cerâmica – tecnologias decisivas para a sobrevivência.
Os fósseis africanos que desafiaram a história mostram que as mulheres pré-históricas andavam longas distâncias carregando crianças e alimentos, enquanto os primeiros passos da humanidade deixaram pegadas de mulheres e crianças em Laetoli (Tanzânia) há 3,6 milhões de anos. A própria evolução da inteligência humana na África parece ter sido impulsionada pela necessidade de cooperação feminina nas comunidades.
Nas sociedades caçadoras-coletoras, muitas vezes matrilineares, a descendência e a herança passavam pela linha materna – um padrão que se manteria em dezenas de povos africanos até hoje.
O Egito Antigo: Quando a Mulher Podia Ser Faraó
O Antigo Egito é provavelmente o exemplo mais conhecido de poder feminino institucionalizado. Nefertiti, Hatshepsut, Cleópatra VII… mas elas não foram excepções. Foram o topo visível de um sistema em que as mulheres tinham direitos raros no mundo antigo.
- Direito à propriedade privada
- Direito de iniciar divórcio
- Direito de governar em nome próprio (Hatshepsut usou barba postiça cerimonial e intitulou-se “Rei do Alto e Baixo Egito”)
- Grande Esposa Real era muitas vezes co-regente de facto
A rainha Ahhotep, mãe de Amósis I, recebeu as “Moscas de Ouro” – a mais alta condecoração militar egípcia – por ter liderado exércitos contra os hicsos. Teye, esposa de Amenhotep III, assinava tratados internacionais em seu próprio nome. Nefertari, de Ramsés II, aparece em estátuas do mesmo tamanho que o marido – sinal claro de igualdade de estatuto.
Quer saber mais sobre estas figuras extraordinárias? Veja o artigo completo sobre as mulheres poderosas da antiguidade.
Nubia/Kush: As Kandakes que Roma Temieu
Ao sul do Egito, o Reino de Kush produziu uma sucessão impressionante de rainhas-guerreiras conhecidas pelos gregos como Kandake (título que deu origem ao nome “Candace”).
Amanirenas (40–10 a.C.) comandou pessoalmente o exército que derrotou três legiões romanas e decapitou a estátua de Augusto em Assuã. Os romanos ficaram tão impressionados que assinaram um tratado de paz favorável a Kush – algo raríssimo.
Amanishakheto, sua sucessora, aparece em relevos com lança e escudo, pisando nove inimigos – iconografia normalmente reservada a faraós homens. As pirâmides de Meroé ainda guardam os tesouros destas rainhas guerreiras. Mais detalhes em o reino de Kush e sua relação com o Egito.
Rainha Amina de Zazzau (atual Nigéria) – A Guerreira Hausa
No século XVI, mas com raízes em tradições muito mais antigas, Amina expandiu o reino Hausa de Zazzau através de campanhas militares lendárias. Construiu as famosas muralhas de terra (ganuwar Amina) que ainda hoje rodeiam várias cidades hausa. Diz-se que nunca se casou para não dividir o poder e que tomava um amante em cada cidade conquistada… que era executado ao amanhecer.
As Rainhas-Mãe em Sociedades Matrilineares
Em centenas de povos bantu, akan, tuaregue, ashanti, lovedu, etc., a linhagem e a sucessão passavam pela mãe. Entre os Akan (Gana e Costa do Marfim), a rainha-mãe (ohemmaa) era co-governante e escolhia (ou destituía) o rei.
Na cultura Lovedu (África do Sul), a Rainha da Chuva (Modjadji) era considerada imortal e controlava literalmente o clima através de rituais. Até os zulus e os ndebele lhe pagavam tributo.
Mulheres Comerciantes e a Rede Transaariana
Nas rotas comerciais transaarianas, mulheres de Gao, Timbuktu e do Império do Mali controlavam o comércio de sal, tecidos e ouro. Eram conhecidas como “nbibi” ou “tinan” – mulheres ricas e independentes que financiavam caravanas inteiras.
Fatima bint Muhammad al-Fihri (século IX), nascida em Kairouan (Tunísia) e emigrada para Fez, usou a sua herança para fundar a Universidade de Al-Qarawiyyin – ainda hoje a mais antiga do mundo em funcionamento.
Sacerdotisas e Guardiãs da Espiritualidade
Em quase todas as religiões tradicionais africanas, as mulheres eram (e muitas vezes ainda são) as principais mediadoras espirituais. Entre os Yoruba, as Iyalorixá (mães-de-santo) detêm autoridade religiosa superior à dos homens em muitos casos. No antigo Egito, o título “Esposa de Deus de Amon” dava à portadora controle sobre as terras mais ricas do país.
Economia e Trabalho: A Espinha Dorsal Silenciosa
Nas sociedades agrícolas, as mulheres eram responsáveis pela maior parte da produção alimentar. No Reino do Daomé (Benin), existiam as famosas “Amazónas do Daomé” – um regimento exclusivamente feminino que chegou a constituir 30% do exército.
Mas mesmo nas sociedades mais comuns, as mulheres controlavam mercados, tecelagem, cerâmica e produção de cerveja – atividades económicas cruciais.
Arte e Expressão: A Voz Feminina na Cultura
A famosa cabeça de terracota Nok (Nigéria, 500 a.C.–500 d.C.) representa frequentemente mulheres com penteados elaborados – sinal de estatuto. As estátuas Akan de fertilidade (akuaba) e as esculturas Dogon mostram mulheres em posições de autoridade espiritual.
A arte rupestre na África de Tassili n’Ajjer (Argélia) e Tsodilo (Botsuana) mostra cenas de mulheres dançando, colhendo e liderando rituais há mais de 10 000 anos.
As Mulheres Igbos e o Sistema Dual-Sex
Entre os Igbos (Nigéria), existia um sistema político de sexo dual: os homens tinham os seus títulos e conselhos, mas as mulheres tinham títulos paralelos e um conselho próprio liderado pela Omu. Podiam fechar mercados e impor multas aos homens – inclusive ao rei – se estes violassem leis que afetassem as mulheres.
O Legado que Chegou até Hoje
Muitas sociedades africanas contemporâneas mantêm ecos deste poder feminino antigo:
- As mulheres tuaregues ainda herdam e transmitem propriedade
- As mulheres ashanti continuam a escolher o rei
- As mulheres lovedu ainda têm a Rainha da Chuva
- As mulheres hausa continuam a dominar certos mercados
Perguntas Frequentes
P: Existiram mesmo mulheres faraós além de Hatshepsut e Cleópatra?
R: Sim! Sobeknefru (Dinastia XII), Nitocris (Dinastia VI, possivelmente lendária), Tauosret e até Merneith (Dinastia I) usaram título completo de faraó.
P: As mulheres podiam divorciar-se facilmente no Egito Antigo?
R: Sim. Bastava declarar perante testemunhas e ficava com parte dos bens e custódia dos filhos.
P: As Amazonas do Daomé eram mesmo mulheres guerreiras?
R: Sim. Eram um corpo de elite treinado desde a infância. Os europeus que as enfrentaram no século XIX disseram que eram as tropas mais ferozes que já tinham visto.
P: Porque ouvimos tão pouco sobre estas mulheres?
R: Porque a maior parte da história africana antiga foi escrita por homens europeus (ou árabes) do norte) que ou não entenderam ou deliberadamente ignoraram os sistemas matrilineares e o poder feminino.
Quer continuar a descobrir estas histórias incríveis?
- Veja o artigo completo sobre mulheres poderosas na história africana
- Leia sobre as mulheres na sociedade africana em geral
- Conheça as rainhas africanas que o mundo precisa conhecer
E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais para mais conteúdo diário:
- YouTube → https://www.youtube.com/@africanahistoria
- Canal do WhatsApp → https://whatsapp.com/channel/0029VbB7jw6KrWQvqV8zYu0t
- Instagram → https://www.instagram.com/africanahistoria/
- Facebook → https://www.facebook.com/africanahistoria
A história da África não está completa sem a história das suas mulheres.
E a história das suas mulheres… está apenas começou a ser contada.
Partilhe este artigo e ajude a devolver estas rainhas, guerreiras e sábias ao lugar que sempre mereceram.








