Os Maninka e os Soninke não foram apenas “grupos étnicos”. Foram os arquitetos de impérios, os senhores do ouro e do saber, os guerreiros que levaram a língua mandé até ao Atlântico. A sua história é a coluna vertebral da África Ocidental medieval.

A savana sudanesa, essa imensa faixa entre o Saara e a floresta, foi o palco de algumas das mais brilhantes civilizações africanas. Entre os séculos VIII e XVI, dois povos mandé dominaram política, económica e culturalmente esta região: os Soninke (fundadores do Império de Gana) e os Maninka ou Malinké (o coração do Império do Mali). Enquanto os Soninke abriram as rotas transaarianas que enriqueceram o mundo medieval, os Maninka, sob a liderança de Sundjata Keita e dos seus sucessores, levaram essa herança a um novo patamar de esplendor – e, mais tarde, graças ao general Tiramaghan Traore, até aos confins da Senegâmbia e da Casamance.

Quem são os Soninke? O Primeiro Grande Império da Savana

Os Soninke, também chamados Sarakole ou Wangara nalguns contextos, são considerados o ramo mais antigo dos povos mandé do norte. A sua capital lendária, Kumbi Saleh, foi descrita pelos geógrafos árabes como uma cidade de duas partes: uma muçulmana de pedra e uma animista de barro. Leia mais em Segredos do Império de Gana e Reino de Gana: O Surgimento.

Foi o controlo do comércio de ouro e sal que transformou Gana no estado mais rico da África medieval. Como refere Ibn Hawqal no século X:

“O rei de Gana pode colocar 200 000 guerreiros em campanha, mais do que qualquer outro soberano da Terra.”

Os Soninke desenvolveram uma das primeiras burocracias escritas da África subsariana (em árabe) e uma cavalaria temida em toda a savana. Quando o império entrou em declínio no século XI, pressionado pelos Almorávidas e por secas prolongadas, os clãs Soninke dispersaram-se, mas mantiveram a sua identidade comercial e religiosa até hoje (especialmente no atual Mali, Mauritânia e Senegal oriental).

Os Maninka: Do Reino de Do à Glória do Mali

Os Maninka são o ramo sul dos povos mandé. A sua epopeia fundadora, a Epopeia de Sundjata, narra como Sundjata Keita, nascido com dificuldades motoras e exilado na infância, unificou os doze reinos mandé e destruiu o rei tirano Soumaoro Kanté do Sosso em 1235, na batalha de Kirina.

Após a vitória, Sundjata proclamou o Império do Mali e estabeleceu a famosa Carta de Kurukan Fuga (1222–1236), considerada uma das primeiras declarações de direitos humanos da história. Quer saber mais sobre essa constituição oral? Veja A Influência das Tradições Orais.

Com Mansa Musa (1312–1337), o império atingiu o apogeu. A sua peregrinação a Meca em 1324–1325, acompanhado por 60 000 pessoas e toneladas de ouro, fez cair o preço do metal no Cairo durante uma década. Conheça todos os detalhes em Mansa Musa: O Homem Mais Rico da História.

Tiramaghan Traore: O General que Levou os Maninka ao Oceano Atlântico

Depois da morte de Sundjata, o Mali continuou a expandir-se para oeste. Um dos generais mais brilhantes foi Tiramaghan Traore, pertencente ao poderoso clã Traore (um dos três grandes clãs maninka junto com Keita e Konaté).

Por volta de 1260–1280, Tiramaghan recebeu ordem de Mansa Ule (ou Wali) para subjugar os reinos costeiros e abrir caminho até ao Atlântico. Ele conquistou:

  • O reino Bainuk e Serer da atual Casamance
  • O reino de Kaabu (ou Gabu), que viria a ser o mais duradouro estado mandé na Senegâmbia
  • Várias províncias Jolof e do baixo Gâmbia

Tiramaghan não se estabeleceu na região e fundou cidades-estado maninka em Kaabu, cuja capital, Kansala, resistiria até 1867 contra os portugueses e fulas. Os seus descendentes, conhecidos como Nyancho (os “senhores da guerra” em mandinga), governaram Kaabu durante seis séculos.

Foi assim que comunidades maninka (hoje chamadas Manjaco, Mankanya, Mandinka da Casamance, etc.) apareceram tão longe do núcleo original do Mali. A língua mandinga tornou-se a língua franca da Senegâmbia até à chegada dos europeus.

Estrutura Social e Cultural Comum entre Maninka e Soninke

Apesar das diferenças políticas, ambos os povos partilham traços marcantes:

  1. Organização em clãs patrilineares (Keita, Traore, Konaté, Kamara, etc.)
  2. Sistema de castas nyamakala (griots, ferreiros, coureiros)
  3. Tradição oral épica (Sundjata, Sunjata Fasa)
  4. Islamização progressiva a partir do século XI, mantendo práticas animistas
  5. Agricultura de cereais (milhete, sorgo) e criação de gado
  6. Comércio de longa distância (ouro, sal, kola, escravos)

A Herança Atual: De Niani a Ziguinchor

Hoje, os falantes de línguas mandé (grupo maninka-bambara-soninke) são mais de 60 milhões de pessoas, do Mali à Gâmbia, passando pela Guiné-Conakry, Guiné-Bissau, Senegal, Costa do Marfim e Burkina Faso.

Na Casamance e na Gâmbia, os Mandinka/Maninka representam cerca de 35–40 % da população e são maioritários em regiões como Kolda, Sédhiou e Brikama. A música de griots como Salif Keita, Mory Kanté ou Toumani Diabaté, o kora e o balafon, tudo vem dessa matriz cultural maninka.

Perguntas Frequentes

P: Qual a diferença entre Maninka, Mandinka e Malinké?
R: Não há diferença étnica. São variações do mesmo nome:

  • Maninka – forma usada no Mali e Guiné
  • Mandinka – forma usada na Gâmbia e Senegal
  • Malinké – forma francesa usada na Costa do Marfim e Guiné

P: Tiramaghan Traore é antepassado direto dos Mandinka da Casamance?
R: Sim. A tradição oral de Kaabu afirma que os Nyancho (governantes de Kaabu) descendem diretamente dele. Muitos clãs manjaco e mandinka da Casamance ainda citam Tiramaghan nas suas genealogias.

P: Os Soninke e os Maninka falam a mesma língua?
R: Falam línguas muito próximas dentro do continuum mandé. Um soninke do Kayes entende um maninka de Kankan com alguma dificuldade, mas os griots cantam nas duas variantes sem problema.

P: O Império do Mali conquistou mesmo a Senegâmbia?
R: Não diretamente. A expansão de Tiramaghan foi uma espécie de “fronteira móvel”. Kaabu tornou-se um estado vassalo semi-independente que pagava tributo em cavalos e escravos, mas mantinha administração própria.

P: Porque é que os Maninka se fixaram tão a oeste?
R: Três razões principais:

  1. Ordens militares dos mansas do Mali
  2. Procura de novos territórios agrícolas (a savana estava a ficar saturada)
  3. Acesso ao comércio atlântico que começava a emergir com os portugueses no século XV

Um Legado que Ainda Respira

Dos mercados de Niani e Timbuktu às florestas sagradas de Kansala, dos griots de Kela aos jali da Casamance, os Soninke e os Maninka construíram a mais longa e influente civilização da África Ocidental antes da chegada europeia. A sua língua, a sua música, a sua organização social e o seu sentido de honra continuam vivos – e continuam a inspirar.

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Jàmma rek! (Paz somente, em mandinga)