Explorando as conexões fascinantes entre a arte real africana do Reino do Daomé e as antigas tradições egípcias, este artigo mergulha nas representações simbólicas dos reis Glélé e Dakodonu, destacando como as récades — cetros reais fon — ecoam os princípios gráficos da Palette de Narmer, uma das obras mais icónicas da antiguidade egípcia.
Reino do Daomé e Seus Soberanos
O Reino do Daomé, fundado no início do século XVII no atual Benim, representou um dos mais poderosos estados da África Ocidental. A sua história remonta às origens pré-históricas do continente, onde os primeiros humanos na África fascinantes deixaram marcas indelével na evolução cultural e política.
Dakodonu (ou Dokodunu), um dos primeiros líderes, é creditado com a fundação da capital Abomey, após um conflito que deu origem ao nome “Dahomey” — “na barriga de Dan”. Embora não haja récades específicas associadas diretamente a ele, o seu legado estabeleceu as bases para a monarquia fon, influenciando reis posteriores como Glélé (1858-1889), cujo símbolo era o leão, representando força e ferocidade.
Glélé, filho de Ghezo, expandiu o reino através de campanhas militares e enriqueceu a corte com arte simbólica. As récades, cetros de comando derivados do português “recado” (mensagem), serviam como emblemas de autoridade, autenticação de mensagens reais e instrumentos rituais. Para Glélé, as récades frequentemente exibiam o leão, atacando presas ou em poses dominantes, transmitindo poder absoluto.
A Palette de Narmer: Um Marco da Iconografia Egípcia
Para compreender a comparação, voltemos ao antigo Egito. A Palette de Narmer, datada de cerca de 3100 a.C., é uma das primeiras representações narrativas da história. Esta paleta cerimonial, encontrada em Hierakonpolis, mostra o rei Narmer unificando o Alto e Baixo Egito.
No anverso, Narmer, com a coroa branca do Alto Egito, esmaga inimigos, enquanto no reverso, com a coroa vermelha, inspeciona decapitações. Símbolos como o falcão Hórus (representando o rei divino) segurando prisioneiros, serpopards entrelaçados (simbolizando unidade) e cabeças de Hathor (deusa vaca) enquadram a composição.
Os princípios gráficos aqui são proto-hieroglíficos: figuras em escala hierárquica (o rei maior que os outros), composição em registos horizontais, simbolismo rebus (imagens que representam ideias ou sons) e narrativa visual que combina poder real com aprovação divina. Esta abordagem não é mera decoração, mas uma linguagem gráfica que proclama domínio e ordem cósmica, semelhante aos hieróglifos egípcios que moldaram a civilização egípcia atemporal.
As Récades do Daomé: Símbolos de Poder e Narrativa Visual
No Daomé, as récades evoluíram como objetos de poder. Feitas de madeira, metal ou marfim, exibiam motivos zoomórficos ou proverbiais únicos a cada rei. Para Glélé, o leão dominava: récades mostram leões devorando vítimas, simbolizando a ferocidade do soberano e a submissão de inimigos.
Embora Dakodonu seja anterior à tradição das récades personalizadas (que se intensificou a partir de Ghezo), o seu papel fundador liga-se à linhagem real que adotou estes cetros. As récades funcionavam como “mensagens visuais”: o emblema animal identificava o rei, narrando conquistas e virtudes.
Artistas reais esculpiam cenas complexas — leões atacando homens, cadeados (simbolizando astúcia) ou camaleões (paciência) para Glélé. Estes motivos usam princípios gráficos semelhantes aos da Palette de Narmer:
- Escala hierárquica — O animal real (leão) maior e central, dominando figuras humanas menores.
- Simbolismo rebus — Imagens que transmitem provérbios ou ideias abstratas, como o leão representando “força invencível”.
- Narrativa em registos — Cenas compostas para contar histórias de vitória, semelhantes aos registos da paleta.
- Aprovação divina — Integração com vodun, onde animais ligam-se a deuses, ecoando Hórus ou Hathor.
Esta semelhança não implica influência direta (separados por milénios e geografias), mas reflete convergências universais na arte real africana: usar símbolos visuais para legitimar poder, unificar territórios e afirmar ordem contra caos.
Paralelos Gráficos: Da Palette de Narmer às Récades
A Palette de Narmer usa composição registada para narrar unificação: topo com serekh (nome real), meio com ação do rei, base com inimigos caídos. As récades, embora tridimensionais, adotam lógica similar — topo com emblema principal (leão para Glélé), corpo com cenas narrativas, base firme simbolizando estabilidade.
Ambas empregam animais como metáforas reais: touro ou falcão em Narmer para força divina; leão em Glélé para ferocidade. A escala exagerada do rei/animal transmite superioridade, princípio visto nas representações do poder e da realeza.
Hieróglifos egípcios combinam ideogramas e fonogramas; récades fon usam imagens proverbiais como “linguagem visual”, onde o leão não é literal, mas representa o rei “devorando” inimigos.
Estes paralelos destacam como civilizações africanas, do Nilo ao Golfo da Guiné, desenvolveram sistemas gráficos sofisticados para propaganda real. Enquanto o Egito influenciou o mundo com pirâmides e templos (veja a arquitetura das pirâmides e templos), o Daomé usou récades em rituais e diplomacia, ecoando antigas tradições de arte rupestre e artefactos pré-históricos.
O Legado de Glélé e Dakodonu na História Africana
Glélé resistiu ao colonialismo francês, mantendo o Daomé independente até à sua morte em 1889. O seu sucessor, Béhanzin (símbolo: tubarão), continuou a luta, mas o reino caiu em 1894. Dakodonu, como fundador mítico, simboliza origens humildes transformadas em império.
As récades sobreviveram como património, muitas em museus, inspirando debates sobre restituição. Compará-las à Palette de Narmer revela continuidade na expressão artística africana: da pré-história africana na cultura às civilizações perdidas e mistérios.
Esta conexão desafia narrativas eurocêntricas, mostrando África como berço de inovações gráficas, desde ferramentas da idade da pedra a símbolos reais complexos.
Influências Culturais e Conexões Transcontinentais
Embora o Egito e o Daomé estejam distantes, migrações antigas e comércio (como rotas comerciais transaarianas) podem ter transmitido ideias. Princípios como simbolismo animal aparecem em arte rupestre na África e civilizações ancestrais.
No Daomé, vodun integrou elementos espirituais semelhantes a religiões nilóticas. As récades, como a paleta, serviam em rituais, ligando poder terreno ao divino.
Explorar estas ligações enriquece a compreensão da influência cultural da África antiga, mostrando como reis como Glélé e Narmer usaram arte para eternizar legados.
Conclusão: Uma Herança Simbólica Compartilhada
As récades de Glélé e as tradições fundadas por Dakodonu, comparadas à Palette de Narmer, ilustram genialidade gráfica africana. Ambas usam imagens para narrar poder, unificação e divindade, princípios que ecoam dos primeiros passos da humanidade aos reinos medievais.
Esta comparação convida a refletir sobre a riqueza da história africana, frequentemente subestimada.
Perguntas Frequentes
Quem foi Dakodonu e qual o seu papel no Daomé?
Dakodonu é considerado um dos fundadores do reino, estabelecendo Abomey e dando origem ao nome Daomé através de uma lenda de conquista.
O que simbolizava o leão nas récades de Glélé?
O leão representava força, coragem e domínio, refletindo as conquistas militares de Glélé e a sua persona como “homem de ferro”.
Existe influência direta egípcia no Daomé?
Não há evidência direta, mas paralelos gráficos sugerem convergências universais na arte real africana.
Onde posso ver récades originais?
Muitas estão em museus como o Quai Branly (Paris) ou históricos em Abomey (Benim). Explore mais em as cidades antigas e a importância.
Por que comparar com a Palette de Narmer?
Ambas usam composição simbólica, escala hierárquica e narrativa visual para proclamar poder real, semelhantes aos princípios hieroglíficos.
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