Uma população de origem berbere, líbia e subsariana que, entre 1000 a.C. e 700 d.C., transformou o coração do atual deserto da Líbia num oásis verdejante graças aos famosos foggaras (canais subterrâneos de irrigação) e usava ovos de avestruz como cantis, joias, contas monetárias e até objetos rituais.

Bem-vindo ao mais fascinante “oásis esquecido” da história africana.

Enquanto o mundo conhece as pirâmides do Egito ou as rotas de caravanas do Império de Gana, poucos falam dos Garamantes – o povo que literalmente fez o Saara florir numa época em que a maioria da Europa ainda vivia em aldeias de madeira. E o mais impressionante: eles eram um povo racial e culturalmente misto, prova viva de que a África antiga era um caldeirão de povos muito antes da globalização moderna.

Quem Foram os Garamantes?

Os Garamantes habitavam a região de Fezzan, no sudoeste da atual Líbia. Heródoto, no século V a.C., já os mencionava como um povo poderoso que caçava “etíopes trogloditas” em carros de quatro cavalos. Hoje sabemos que essa descrição era exagerada, mas continha um fundo de verdade: eles dominavam o deserto com tecnologia avançada.

Eram descendentes de povos berberes (norte-africanos claros) misturados com populações subsarianas de pele escura que migraram para norte durante períodos mais húmidos do Saara (Holoceno médio). Escavações em Germa (antiga Garama, a capital) revelaram esqueletos com traços mistos, cerâmica de estilo sudanês e objetos de origem núbia. Ou seja, a diversidade genética e cultural já era uma realidade há 3 mil anos – algo que podemos aprofundar em Berço da Humanidade e de Civilizações ou em A África Antiga: Mitos e Verdades.

A Revolução Hidráulica: Os Foggaras

A grande genialidade garamante foi dominar a água no deserto.

Construíram mais de 600 km de canais subterrâneos (chamados foggaras ou qanats) que captavam lençóis freáticos das montanhas do Tassili n’Ajjer e levavam a água por gravidade até aos campos. Alguns túneis tinham mais de 5 km de comprimento e até 7 metros de profundidade. Esta tecnologia é a mesma que mais tarde os persas e árabes copiaram e espalharam até à Espanha moura.

Graças aos foggaras, cultivavam trigo, cevada, figos, uvas, tâmaras, sorgo e até algodão. Exportavam estes produtos (e escravos) para Cartago e para o Império Romano em troca de cerâmica fina, vidro, vinho e azeite de oliva. Roma chamava-lhes “os senhores do deserto”.

Se quiser saber mais sobre sistemas de irrigação africanos antigos, veja o artigo Os Sistemas de Irrigação e as Técnicas ou Os Sistemas de Irrigação do Vale do Nilo.

O Uso Surpreendente dos Ovos de Avestruz

O ovo de avestruz era, para os Garamantes, o que o plástico é para nós hoje: multiuso.

  • Cantis – cortavam a ponta, esvaziavam e usavam para transportar água (um único ovo cabe até 1,2 litro).
  • Joias e contas – cascas polidas e gravadas serviam de colares e braceletes.
  • Moeda – pedaços de casca perfurada circulavam como dinheiro em algumas zonas.
  • Arte e ritual – centenas de ovos decorados com motivos geométricos e animais foram encontrados em túmulos. Alguns tinham até 2 000 anos quando foram enterrados.

Em cemitérios como Fewet ou Zinchecra aparecem ovos inteiros colocados junto aos mortos – provável oferenda para a viagem ao além. Quer conhecer mais objetos do dia a dia das civilizações africanas? Veja A Importância dos Animais no Cotidiano.

Sociedade Mista e Hierarquizada

Os Garamantes não eram um povo homogéneo. Havia:

  • Elite clara de origem líbio-berbere que controlava a capital Garama (cidade com muralhas, templos e até termas romanas).
  • Camponeses e pastores de pele escura nas oásis periféricos.
  • Escravos capturados em razias ao sul (os famosos “etíopes” de Heródoto).

Apesar da hierarquia, a arte mostra convivência: figuras negras e claras aparecem lado a lado em pinturas rupestres e cerâmicas. A mistura era tão intensa que os romanos, quando finalmente conquistaram Fezzan no século I d.C., descreviam-nos como “meio núbios, meio líbios”.

Relações com Roma: Do Comércio à Guerra

No auge (séculos I–III d.C.), os Garamantes tinham carros de guerra puxados a cavalos, importavam ânforas romanas e exportavam marfim, ouro, pedras semipreciosas (cornalina do Saara) e escravos.

Mas a relação azedou. Em 69 d.C., fizeram uma razia até à costa líbia. Roma respondeu com a campanha de Lúcio Cornélio Balbo Menor, que tomou Garama. Mais tarde, no século III, o general Septímio Severo (ele próprio de origem líbia, de Leptis Magna) voltou a submeter os Garamantes. Ainda assim, o reino sobreviveu mais quatro séculos, até à desertificação final e à chegada dos árabes no século VII.

Declínio: Quando o Clima Mudou Tudo

Por volta do ano 300–400 d.C., o Saara começou a secar novamente. Os lençóis freáticos baixaram, muitos foggaras colapsaram e a agricultura intensiva esgotou os solos. A população dispersou-se ou foi absorvida pelos antepassados dos atuais tuaregues e tebu.

Hoje, imagens de satélite ainda mostram as cicatrizes dos antigos canais no deserto – linhas retas que se estendem por dezenas de quilómetros. Um lembrete silencioso de que a África já teve civilizações capazes de desafiar o impossível.

Por Que Lições os Garamantes nos Deixam?

  1. A engenharia africana antiga era sofisticada e sustentável (os foggaras ainda funcionam em oásis da Argélia e Marrocos).
  2. A diversidade racial e cultural não é invenção moderna – já existia há milénios.
  3. O colapso ambiental pode derrubar até as sociedades mais avançadas (uma mensagem urgente nos dias de hoje).

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Perguntas Frequentes sobre os Garamantes

P: Os Garamantes eram negros ou brancos?
R: Nem uma coisa nem outra. Eram um povo misto – traços berberes (norte-africanos) + subsarianos. Estudos de ADN antigo confirmam ancestralidade mista.

P: Ainda existem descendentes diretos dos Garamantes?
R: Não de forma pura, mas os tuaregues e tebu do Fezzan mantêm memórias orais e algumas técnicas de foggaras herdadas.

P: Porque quase ninguém conhece os Garamantes?
R: Porque a história africana foi escrita maioritariamente por olhos externos (gregos, romanos, árabes, europeus) que os viam como “bárbaros do deserto”. Só a arqueologia moderna (desde os anos 1990) os trouxe à luz.

P: É verdade que tinham carros de guerra?
R: Sim. Pinturas rupestres e textos romanos confirmam o uso de bigas e quadrigas puxadas a cavalos no Saara – algo único na África antiga.

P: Posso visitar ruínas garamantes hoje?
R: Sim! Germa (Garama), Fewet e o cemitério de Zinchecra estão abertos a visitantes (com guia local). O Museu de Germa tem ovos de avestruz decorados lindíssimos.

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