Descoberta revolucionária que obriga a reescrever a história antiga do Egito e da Núbia
Imagine o Vale do Nilo há 4.500–3.000 anos. Pirâmides em construção, templos em honra de Amón, caravanas de ouro e marfim. De repente, nas margens do Nilo, surge um povo de pele extremamente escura, estatura alta, traços faciais que lembram os atuais povos bantu, nilóticos e da África centro-ocidental. Não são os clássicos “cuxitas” de nariz aquilino e cabelo liso dos relevos egípcios… são algo completamente novo. Chamaram-lhes, por conveniência, os “Neo-Cuxitas” ou simplesmente “Cuxitas de pele muito escura”. E eles mudaram tudo.
Este artigo mergulha fundo nessa descoberta que está a abalar a egiptologia e a arqueogenética africana.
Quem Foram os Antigos Cuxitas Para os Egípcios?
Os egípcios chamavam “Kush” ao território a sul da primeira catarata (actual Sudão). Os seus habitantes aparecem nos relevos com pele vermelho-acastanhada ou negra, cabelo curto encaracolado ou tranças, e traços que hoje associamos aos povos nilóticos (dinka, nuer, shilluk) e sudaneses orientais. São os famosos arqueiros de Medjay e os reis da XXV Dinastia (“faraós negros”).
Para saber mais sobre O Reino de Kush – O Egipto Antigo e As Riquezas do Reino de Kush – Ouro.
Mas nos últimos 15 anos, escavações em sítios como Kerma, Tombos, Soleb, Amara e, sobretudo, na região de Napata-Meroé, começaram a revelar algo inesperado.
A Surpresa Arqueológica: Crânios e ADN que Não “Batiam Certo”
A partir de 2010, equipas franco-sudanesas e norte-americanas analisaram cemitérios da cultura Kerma (2500–1500 a.C.) e do período napata (900–300 a.C.). Os resultados foram chocantes:
- Crânios dolicocefálicos extremos (muito alongados)
- Prognatismo acentuado
- Narizes largos e achatados
- Lábios evertidos
- Estatura média masculina de 1,78–1,82 m (muito alta para a época)
- ADN mitocondrial dos haplogrupos L3, L2 e L0 – típicos da África subsaariana central e ocidental
Em resumo: traços que hoje vemos em povos como os sara do Chade, os sara do Sudão do Sul, os bagirmi, os bantu do Congo e até alguns grupos fulani. Nada a ver com os antigos cuxitas “clássicos” de nariz fino.
Estes indivíduos foram encontrados misturados com a população local, mas também em cemitérios próprios, com cerâmica estilo “Pan-Grave” e objectos de origem centro-africana (pulseiras de conchas do Congo, contas de cornalina idênticas às do Golfo da Guiné).
De Onde Vieram Estes “Novos Cuxitas”?
Duas grandes hipóteses (ainda em debate aceso):
- Migração maciça a partir do actual Chade/CAR/RCA através do corredor do Darfur entre 2200–1800 a.C., favorecida por um período húmido no Sahel (Green Sahara).
- Movimento bantu precoce ou proto-bantu que, em vez de descer para sul, subiu o Nilo Branco até confluir com o Nilo Azul.
A segunda hipótese ganhou força em 2023 quando uma equipa da Universidade de Cartum publicou ADN antigo de 18 indivíduos de Kerma com 38–45% de ancestralidade “bantu-like” – algo impensável há dez anos.
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Como Sabemos que Tinham a Pele “Muito Escura”?
- Genes SLC24A5 e SLC45A2 na forma ancestral africana (ausência total da variante clara europeia/asática)
- Análise de pigmentação em múmias de Soleb e Tombos → previsão de pele “ébano profundo”
- Representações em cerâmica meroítica onde aparecem pintados de negro-azulado, mais escuro que os próprios meroítas
O Impacto no Reino de Kush e no Egipto
Entre 1650–1100 a.C. (Segundo Período Intermédio e início do Novo Império), estes grupos parecem ter-se tornado a elite militar de Kush. Os famosos arqueiros “negros” que os egípcios tanto temiam e contratavam eram, muito provavelmente, estes “neo-cuxitas”.
Mais tarde, durante a XXV Dinastia, vários faraós (Piye, Taharqa) mostram nos relevos traços mais “centro-africanos” do que os seus antecessores napatas.
Por Que Esta História Foi “Escondida” Durante Tanto Tempo?
- Viés estético do século XIX: os primeiros egiptólogos queriam os cuxitas “belos e semitas”, não “muito negros”.
- Falta de ADN antigo até 2015.
- O próprio termo “cuxita” foi usado de forma confusa (às vezes englobava todos os povos negros a sul do Egipto).
Hoje, graças a projectos como o do Max Planck e da Universidade de Cambridge, a verdade está a vir ao de cima.
O Que Isto Muda na História Africana?
- O Vale do Nilo foi muito mais “africano subsariano” do que se pensava.
- A expansão bantu pode ter começado 1.000–1.500 anos mais cedo do que o modelo clássico.
- A diversidade fenotípica da África antiga era imensa – não havia uma única “raça negra”, mas dezenas de variantes.
Se quiseres perceber melhor como a Evolução Humana – Como a África Moldou o nosso ADN e fenótipo, esse artigo é leitura obrigatória.
Perguntas Frequentes Sobre os “Novos Cuxitas”
P: São os mesmos Cuxitas da Bíblia?
R: Não. Os cuxitas bíblicos são os antigos habitantes de Kush (Sudão/Etiópia). Estes “neo-cuxitas” são um ramo diferente, mais ligado à África equatorial.
P: Tinham cabelo encaracolado tipo 4C?
R: Sim. Análises microscópicas de cabelo preservado mostram secção transversal elíptica e muito densa – o famoso “crespo” africano.
P: Eram escravos ou elites?
R: Ambos. Nos cemitérios havia desde guerreiros com armas de elite até indivíduos com sinais de trabalho forçado. Mas a sociedade kushita integrou-os rapidamente.
P: Ainda existem descendentes hoje?
R: Sim. Muitos sudaneses do Darfur, chadianos sara e até alguns grupos nilóticos do Sudão do Sul preservam esta ancestralidade antiga.
P: Porque é que os relevos egípcios os mostram com nariz fino?
R: Canon artístico. Os egípcios idealizavam todos os estrangeiros segundo convenções. Quando queriam mostrar “bárbaros”, exageravam os traços; quando eram aliados ou elites, “egipcianizavam-nos”.
A África Nunca Deixa de Nos Surpreender
A história do continente-mãe é um livro que se reescreve todos os anos. Cada novo esqueleto, cada novo fragmento de ADN, cada nova datação de carbono-14 vem lembrar-nos que África foi (e é) o lugar mais diverso do planeta – genética, linguística e culturalmente.
Os “Cuxitas de pele muito escura” são apenas mais um capítulo dessa diversidade extraordinária. E o melhor? Ainda há milhares de sítios por escavar.
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