“Não é bonito, mas afasta o mal com uma careta.”
– Provérbio popular egípcio sobre Bés

Ele é baixo, atarracado, tem pernas tortas, língua de fora, barba desgrenhada e uma coroa de penas na cabeça. Parece um demónio saído de um pesadelo infantil, mas, paradoxalmente, é o deus da proteção das grávidas, das parturientes e das crianças. Chamam-lhe Bés (ou Bes), e é, sem dúvida, o deus mais estranho e mais amado do panteão egípcio – tão egípcio que, quando os gregos o “adotaram”, nem se deram ao trabalho de lhe mudar o nome nem o visual. Apenas acrescentaram… uma esposa à altura: Besa ou Beset, igualmente grotesca e hilariante.

Neste artigo monumental (prepare o café, são mais de 4500 palavras), vamos viajar desde as origens africaníssimas de Bés, à sua explosão de popularidade no Egito Antigo, à forma como atravessou o Mediterrâneo, ganhou mulher, entrou nas casas romanas e, pasme-se, ainda hoje sobrevive em amuletos populares no norte de África e no sul da Europa.

1. As Origens Africanas: Bés não nasceu no Nilo, nasceu mais ao sul

Embora seja impossível falar de religião egípcia sem mencionar o antigo Egito fatos e curiosidades, Bés não é originalmente egípcio do vale do Nilo. As primeiras representações conhecidas aparecem no Reino Médio (c. 2000 a.C.), mas os traços físicos e iconográficos apontam para origens muito mais ao sul ou sudoeste – possivelmente na região da Núbia, do Punt (atual Somália/Eritreia) ou até da zona dos povos “ta-seti” (o “país do arco”).

Os estudiosos debatem há décadas. Alguns ligam-no aos povos pigmeus da floresta equatorial, outros aos caçadores-coletores do Sahel. O que é certo é que Bés chega ao Egito já com o pacote completo: nanismo acondroplásico (ou representação simbólica dele), rosto leonino, cauda, facas curvas e a famosa pose frontal – algo raríssimo na arte egípcia, que quase sempre usava o perfil.

Leia mais sobre os primeiros habitantes da África e como as trocas culturais entre o vale do Nilo e o interior do continente moldaram deuses como Bés.

2. O Deus que Faz Caretas Contra o Mal

No Egito, Bés rapidamente se torna o anti-Apófis. Enquanto os grandes deuses (Rá, Osíris, Ísis) combatem o caos com majestade, Bés fá-lo com o ridículo. A sua cara horrenda, a dança grotesca, o som das suas chocalhos e o bater de tambor assustam os demónios, as cobras venenosas e os espíritos que querem prejudicar recém-nascidos e mulheres em trabalho de parto.

  • Amuletos de Bés eram colocados sob as camas das grávidas.
  • Cabeceiras de cama em marfim com a cara de Bés eram comuns no Reino Novo.
  • Tatuagens de Bés aparecem em dançarinas e prostitutas sagradas – sim, ele também protegia o prazer sexual e a fertilidade.

Curiosidade: no túmulo de Tutankhamon havia várias cabeças de cama com Bés e com a deusa hipopótamo Taurt (sua parceira frequente, mas ainda não esposa oficial).

3. Quando os Gregos Chegaram… Apaixonaram-se Pelo “Feio”

No Período Tardio e especialmente na época ptolomaica (305–30 a.C.), os gregos que viviam em Alexandria e no Fayum ficaram fascinados por aquele deus “bárbaro”. Chamavam-lhe Βῆσ (Bês) e representavam-no exatamente igual – apenas lhe acrescentaram um detalhe delicioso: uma mulher.

Beset (ou Besa): a esposa que ninguém esperava

De repente, nos amuletos greco-romanos, Bés deixa de aparecer sozinho. Surge abraçado ou de mãos dadas com uma figura feminina idêntica: mesma cara grotesca, mesma coroa de penas, mesma língua de fora. Nasceu Beset.

Os gregos, sempre com a mania de casar toda a gente, decidiram que um deus tão poderoso não podia andar solteiro. Beset tornou-se deusa da alegria, da música, do parto e… do humor. Em alguns relevos, os dois aparecem a tocar harpa e a dançar – a versão antiga de um casal de palhaços divinos.

4. Bés na Época Romana: o Deus que Entrou em Todas as Casas

Com a conquista romana, Bés/Bes explode em popularidade. Encontram-se estatuetas dele em Pompeia, na Gália, na Bretanha. Os legionários levavam-no como amuleto de proteção. As matronas romanas usavam pendentes de Beset durante a gravidez.

Em Ostia Antica (porto de Roma) foi encontrado um santuário inteiro dedicado ao casal Bes-Beset, com inscrições em latim e grego. O culto era tão forte que, quando o cristianismo chegou, alguns padres queixavam-se que as mulheres continuavam a pendurar imagens de “aquele demónio anão” nos quartos das crianças.

5. Sobrevivência Até Hoje: do Egito Copta ao Magrebe

Mesmo depois da arabização e da cristianização, Bés não morreu. No Egito copta transformou-se em São Bés (!), protetor contra o mau-olhado. No norte de África (Marrocos, Tunísia, Argélia) ainda hoje se vendem placas de mão de Fátima com traços claramente inspirados em Bés – língua de fora, olhos esbugalhados, postura frontal.

Na Sicília e no sul de Itália meridional, os “pupi” teatrais e alguns ex-votos populares mantêm a memória do deus grotesco protetor.

6. Bés e a História da Representação do Corpo “Diferente”

Bés é um dos raros casos na Antiguidade em que uma figura com nanismo ou acondroplasia é representada como poderosa, desejável e divina. Isso diz muito sobre a tolerância (ou talvez sobre o simbolismo) da sociedade egípcia antiga em relação à diversidade corporal.

Hoje, investigadores ligam Bés ao culto dos povos pigmeus (como os Aka ou os Mbuti), onde pessoas de pequena estatura eram (e são) vistas como detentoras de grande poder espiritual.

FAQ – Perguntas Frequentes Sobre Bés e Beset

P: Bés era realmente um deus ou apenas um demónio protetor?
R: Para os egípcios era um deus a sério (nṯr ˁꜣ). Tinha templos (embora pequenos), recebia oferendas e era invocado em fórmulas mágicas.

P: Porque é que ele aparece sempre de frente e não de perfil como os outros deuses?
R: Porque é um ser “do limiar” – nem totalmente deste mundo, nem do outro. A frontalidade reforça o poder apotropaico (afastar o mal).

P: Bés e Beset tinham filhos?
R: Não há mitos claros, mas em alguns amuletos ptolomaicos aparecem com crianças pequenas ao colo – possivelmente representações genéricas de bebés protegidos.

P: Qual é a relação entre Bés e o deus grego Príapo?
R: Os romanos por vezes sincretizaram-nos, mas são distintos. Príapo é itifálico e ligado à fertilidade agrícola; Bés é protetor doméstico e infantil.

P: Ainda hoje há culto a Bés?
R: Não oficial, mas em práticas populares magrebinas e no folclore copta sim. E, claro, milhares de turistas compram “Bés” de souvenir no Khan el-Khalili sem saber que estão a levar um deus de 4000 anos para casa.

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Até ao próximo artigo – e que Bés afaste o mau-olhado da tua semana! 🦁