Descubra como uma divindade feroz se transformou na protectora gentil dos lares egípcios e alcançou o seu auge de popularidade a partir do Reino Médio

Bastet, a deusa com cabeça de gata (ou, em épocas mais antigas, de leoa), é uma das figuras mais fascinantes da mitologia egípcia. Originalmente uma divindade guerreira chamada Bast, associada à ferocidade do deserto e ao calor destruidor do Sol, ela sofreu uma profunda metamorfose ao longo dos séculos, tornando-se a protectora doce dos lares, da casa, da fertilidade, da música, da dança e da alegria. A sua explosão de popularidade aconteceu precisamente após a II Dinastia (c. 2890–2686 a.C.), quando o Egipto se unificou e a necessidade de deuses mais “domésticos” e acessíveis cresceu.

Neste artigo vamos viajar desde os primórdios leoninos de Bast até ao apogeu felino de Bastet em Bubástis, explorando templos, amuletos, múmias de gatos e o motivo pelo qual milhões de egípcios a veneravam no seu dia-a-dia.

Origens: Bast, a Leoa Furiosa do Baixo Egipto

Nos tempos pré-dinásticos e durante o Reino Antigo, a deusa aparecia como uma leoa agressiva, filha de Rá e “Olho de Rá” vingador. O seu nome original, Bast (ou Ubaste), significava “Aquela do unguento perfumado” (bꜣs = jarro de perfume), mas o seu carácter era tudo menos suave. Era uma deusa da guerra, do fogo e da protecção do faraó contra inimigos.

“Bastet é a leoa do Sul, Sekhmet é a leoa do Norte; ambas são filhas de Rá, mas uma bebe sangue e a outra protege a vida.”
– Texto das Pirâmides, Utterance 262 (adaptado)

No Reino Antigo ainda era representada como leoa ou mulher com cabeça de leoa, semelhante a Sekhmet, Mafdet ou Tefnut. A mudança começou a notar-se a partir da II Dinastia, quando os reis de Bubástis (Per-Bast), no Delta oriental, começaram a promover o seu culto local.

A Grande Transformação: De Leoa a Gata Doméstica

Com a unificação do Egipto e a ascensão de Memphis como capital, o panteão precisava de figuras menos terríveis e mais próximas do povo. O gato doméstico (Felis silvestris lybica) já tinha sido domesticado no Egipto por volta de 4000–3500 a.C. (como mostram os achados em Hieracónpolis e no Vale do Nilo). Quando os egípcios perceberam que os gatos eram excelentes caçadores de ratos e cobras – protegendo assim os celeiros e as casas – a associação foi imediata.

A partir do Reino Médio (c. 2055–1650 a.C.) e especialmente no Reino Novo, Bast passou a ser representada quase exclusivamente como gata ou mulher com cabeça de gata, segurando o sistro (instrumento musical) e o aegis. O seu carácter feroz não desapareceu: continuou a ser “Olho de Rá”, mas agora canalizava essa força para proteger em vez de destruir.

Quer saber mais sobre os primeiros passos da humanidade no continente que viu nascer a domesticação do gato? Veja o artigo Primeiros Humanos na África – Fascinantes e Domesticacao de Animais na Pré-História.

Bubástis: A Cidade Santa dos Gatos

A cidade de Per-Bast (atual Tell Basta, no Delta) tornou-se o centro mundial do culto a Bastet a partir da XXII Dinastia (945–715 a.C.), quando faraós líbios de origem bubastita subiram ao trono. Heródoto, que visitou o Egipto no século V a.C., deixou-nos a descrição mais famosa:

“Em Bubástis celebram a festa de Bastet com maior pompa do que em qualquer outra cidade. Vêm barcos de todo o Egipto, homens e mulheres dançam, tocam sistros, bebem vinho… Se alguém matar um gato, mesmo sem querer, é condenado à morte.”
(Heródoto, Histórias, Livro II, 60)

O templo principal, escavado por Édouard Naville em 1887–1889 e mais tarde por equipes egípcias, era colossal. Havia milhares de múmias de gatos oferecidas como ex-votos – hoje no Museu do Cairo e no British Museum. Alguns gatos eram criados dentro do próprio templo para serem sacrificados e mumificados como oferenda.

Iconografia e Simbolismo de Bastet

  • Gata sentada ou mulher com cabeça de gata
  • Sistro (instrumento de música e alegria)
  • Cesto com gatinhos aos pés (símbolo de fertilidade)
  • Aegis com cabeça de leoa (lembrança da sua origem guerreira)
  • Amuleto “utat” (olho) – protecção contra o mau-olhado
  • Coroa com ureus ou disco solar (ligação a Rá)

Durante o Período Tardio e a Época Ptolemaica, os amuletos de Bastet em faiança azul ou verde inundaram o mercado. Milhões foram produzidos – hoje são dos objectos egípcios mais comuns em colecções privadas.

Bastet e as Mulheres Egípcias

Bastet era especialmente querida pelas mulheres. Protegia o parto, a gravidez e as crianças pequenas. Muitas estátuas mostram-na com vários gatinhos, simbolizando a maternidade abundante. As mães colocavam amuletos de Bastet nos berços dos bebés.

Curiosamente, a deusa também estava ligada à sexualidade alegre e à música. Os sistros que carregava eram tocados em festas, danças e rituais de fertilidade. Não é por acaso que o seu festival anual era conhecido pela liberdade sexual temporária – um pouco como o nosso Carnaval.

Para saber mais sobre o papel da mulher no Antigo Egipto, recomendo o artigo As Mulheres Poderosas da Antiguidade e O Papel da Mulher na Sociedade Antiga Sociedade Egípcia.

O Culto dos Gatos no Egipto Antigo

Matar um gato, mesmo acidentalmente, era crime capital. Diodoro Sículo conta que, em 60 a.C., um romano foi linchado em Alexandria por ter morto um gato. Os gatos eram mumificados com o mesmo cuidado que os humanos: máscaras douradas, sarcófagos de madeira ou bronze, joias.

Em 1888, um camponês egípcio descobriu um depósito com cerca de 300 000 múmias de gatos perto de Beni Hassan. Parte foi moída e usada como fertilizante em Inglaterra… o resto está em museus.

Bastet x Sekhmet: Duas Faces da Mesma Deusa?

Muitos textos tardios tratam Bastet e Sekhmet como duas manifestações da mesma energia:

  • Sekhmet = aspecto destruidor (leoa, guerra, peste)
  • Bastet = aspecto benéfico (gata, protecção, alegria)

Quando Rá enviava o “Olho” para castigar a humanidade, podia manifestar-se como Sekhmet (destruição) ou ser apaziguada e transformar-se em Bastet (perdão). Esta dualidade lembra a transformação da deusa Hathor quando se embriagava com cerveja tingida de vermelho (para parecer sangue) e se tornava a dócil Hathor/Bastet.

Bastet no Reino Novo e no Período Tardio

Durante a XVIII–XX Dinastia, Bastet aparece em inúmeros amuletos, estátuas de bronze e relevos. Tutankhamon tinha várias estatuetas da deusa no seu túmulo. No Período Tardio (664–332 a.C.) e na Época Greco-Romana, o culto atingiu o seu apogeu. Cleopatra VII, que se identificava com Ísis, também usava atributos de Bastet nos seus últimos anos.

Bastet Fora do Egipto

Com os fenícios e depois com os gregos, o culto viajou pelo Mediterrâneo. Em Roma era identificada com Ártemis ou Diana. Os famosos “gatos romanos” de bronze encontrados em Pompeia são, na verdade, cópias de Bastet egípcia.

Bastet Hoje – O Legado Vivo

Ainda hoje o gato é o animal mais popular no Egipto moderno. A expressão “māša llāh” (que Alá proteja) muitas vezes é dita quando se vê um gato – eco distante da antiga protecção de Bastet. E o emoji ainda faz lembrar a deusa que conquistou o mundo há mais de 4000 anos.

Perguntas Frequentes sobre Bastet

P: Bastet e Sekhmet são a mesma deusa?
R: Sim e não. São duas manifestações da mesma potência divina filha de Rá. Sekhmet é o aspecto destruidor; Bastet o benéfico. Em alguns templos eram adoradas lado a lado.

P: Porque é que os egípcios mumificavam gatos?
R: Como oferenda votiva. As pessoas compravam gatos já mortos (criados nos templos), mumificavam-nos e ofereciam-nos à deusa para pedir favores.

P: Qual era a maior festa de Bastet?
R: A festa anual de Bubástis, descrita por Heródoto. Centenas de milhares de peregrinos subiam o Nilo em barcos, cantando e dançando.

P: Posso visitar o templo de Bastet hoje?
R: Sim! Tell Basta (Zagazig) está aberto ao público, embora muito destruído. O museu ao ar livre tem belas estátuas da deusa-gata.

P: Bastet tinha marido e filhos?
R: Em algumas tradições tardias era esposa de Ptah e mãe de Maahes (deus-leão) ou de Nefertum. Na maioria dos textos é filha de Rá ou de Atum.

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Mais de 5000 anos depois, Bastet continua a ronronar nos nossos corações. A deusa que começou como leoa furiosa acabou por se tornar o símbolo máximo da doçura protetora – prova de que até os deuses sabem quando é hora de amansar as garras e simplesmente… deixar-se adorar.

Miáu. 🐾