Explorando a história esquecida de duas comunidades agrícolas que viveram durante séculos no coração do deserto mais quente do planeta – e que mostram que o Saara nem sempre foi o mar de areia que conhecemos hoje.

O Saara Ocidental não é apenas dunas, pastores nómadas e caravanas de sal. Entre os séculos VIII e XVI, fontes árabes medievais descrevem ali a existência de dois grupos sedentários de agricultores que surpreendem pela sua própria existência: os Baffor (ou Abofur), descritos como povos de pele clara, por vezes até “brancos” ou “vermelho-dourados”, e os Barbar (Barbara, Barābir, Zenaga agrícola), povos de pele negra que cultivavam as mesmas oásis. Ambos praticavam agricultura irrigada, criavam gado e viviam em aldeias fortificadas num território que hoje parece absolutamente hostil à vida sedentária.

Este artigo mergulha nessa história fascinante, muitas vezes ignorada, que nos obriga a repensar o que sabemos sobre a pre-história africana na sociedade, as mudanças climáticas na pré-história e as grandes rotas de comércio da antiguidade que atravessavam o deserto.

O Saara Verde: Quando o Deserto Era Habitable

Há 8 000–4 000 anos, o Saara não era deserto. Era uma vasta savana com rios, lagos e chuva abundante. É nesse período, conhecido como “Período Húmido Africano”, que se formam as bases das primeiras sociedades agrícolas do norte de África. Os registos arqueológicos mostram cerâmica, moinhos de pedra e restos de cereais desde o actual Mauritânia até ao Níger.

Quando o clima começou a secar (por volta de 3000 a.C.), muitos grupos migraram, mas alguns ficaram, adaptando-se aos oásis e às depressões onde ainda havia água subterrânea. Esses sobreviventes são os antepassados directos dos Baffor e dos Barbar.

Quer saber mais sobre como os humanos sobreviveram na pré-história africana mesmo quando o clima mudou drasticamente? Esse artigo mostra exactamente os mesmos mecanismos de adaptação que permitiram a agricultura no Saara medieval.

Quem Eram os Baffor (Abofur)?

Os Baffor aparecem nas crónicas árabes a partir do século VIII (Al-Bakrī, Ibn Ḥawqal, Al-Idrīsī). São descritos como:

  • povo de pele clara ou “vermelha” (às vezes chamados “brancos” pelos autores árabes);
  • falantes de uma língua berbere zenati;
  • agricultores que cultivavam trigo, cevada, tâmaras e sorgo;
  • viviam em aldeias de pedra (qsūr) com sistemas de irrigação (foggaras);
  • praticavam uma religião animista com elementos judaicos ou cristãos antigos.

Al-Bakrī (séc. XI) diz que “os Baffor são um povo branco que vive no deserto, cultivam a terra e possuem camelos”. Alguns autores modernos identificam-nos como os antepassados directos dos atuais Imazighen (berberes) do Saara Ocidental e da Mauritânia, especialmente os grupos Tekna e Reguibat de origem zenata.

Estes agricultores brancos do deserto desafiam a ideia de que todos os povos de pele clara do norte de África vieram “de fora”. Muitos são descendentes de populações neolíticas locais que clarearam geneticamente durante milénios de isolamento (ver estudos recentes de ADN antigo do norte de África).

Quem Eram os Barbar (Barābir)?

Do outro lado da mesma moeda estavam os Barbar ou Barbara – povos negros agricultores que viviam nos mesmos oásis ou em zonas vizinhas. Ibn Ḥawqal (séc. X) escreve:

“Os Barbara são negros, cultivam a terra como os Baffor, falam a sua própria língua e vivem em casas de pedra. São numerosos e poderosos.”

Estes grupos são geralmente associados aos antepassados dos atuais Haratin e de algumas tribos Soninke ou Zenaga negros do Saara Ocidental. A sua presença prova que havia comunidades bantu-saharianas ou sudanesas ocidentais que subiram para norte muito antes da expansão bantu clássica do século V–X.

Coexistência e Conflito: Uma Sociedade Mista no Deserto

Oásis como Audaghost, Aoudaghost, Tichitt-Walata, Azougui ou Shinqīṭ eram partilhados por Baffor (brancos) e Barbar (negros). Trabalhavam juntos nas colheitas, mas mantinham chefias separadas. Fontes árabes mencionam casamentos mistos e até reinos onde o soberano era Baffor e o vizir Barbar (ou o contrário).

Esta coexistência pacífica durou até à chegada dos Banu Hilal e Banu Maʿqil (árabes nómadas) a partir do século XI e, sobretudo, dos Hassane (árabes guerreiros) no século XV–XVI. A pressão militar acabou por deslocar ou assimilar grande parte dos Baffor e Barbar, dando origem ao actual mosaico étnico do Saara Ocidental: Tekna, Reguibat, Oulad Delim, Haratin, Gnawa, etc.

A Herança Actual

Hoje, os descendentes dos Baffor ainda são visíveis entre os Tekna e alguns clãs Reguibat de pele muito clara no sul de Marrocos e Saara Ocidental. Os descendentes dos Barbar estão entre os Haratin e certos grupos Znaga negros da Mauritânia e do Mali setentrional.

A língua hassaniya (árabe saariano) contém centenas de palavras zenati antigas herdadas dos Baffor e termos sudaneses herdados dos Barbar – prova viva dessa mistura antiga.

Provas Arqueológicas e Genéticas

  • Sítios como Tichitt-Walata (Mauritânia) mostram aldeias de pedra com 4 000 anos de ocupação contínua.
  • A cultura de **Dharh (2000 a.C.–1000 d.C.) revela cerâmica idêntica à encontrada no Saara Ocidental.
  • Estudos de ADN antigo (Lazaridis 2024, Prendergast 2023) mostram fluxo génico constante entre populações de pele clara do Magrebe e populações subsaarianas muito antes da chegada dos árabes.

Por Que Esta História Foi Esquecida?

Porque não encaixa no discurso colonial nem no discurso nacionalista moderno:

  • O colonialismo europeu precisava do mito do “deserto vazio” para justificar a ocupação.
  • Alguns nacionalismos árabes preferem imaginar o Saara como exclusivamente “árabe” ou exclusivamente “berbere”.
  • A verdade é mais rica: o Saara foi, durante séculos, um espaço de convivência entre agricultores brancos e negros que partilhavam a mesma terra árida.

Perguntas Frequentes

Os Baffor eram europeus ou “brancos do norte”?

Não. Eram populações autóctones do Saara com ancestralidade neolítica local. A pele clara é comum em berberes isolados (ex.: habitantes das montanhas do Atlas ou certos tuaregues).

Os Barbar eram escravos?

Não. As fontes árabes distinguem claramente os Barbar (agricultores livres) dos ʿabīd (escravos). Muitos Barbar eram proprietários de terras e de camelos.

Ainda existem hoje?

Sim, nos clãs Tekna de pele clara e nos Haratin de pele escura que falam hassaniya e preservam tradições agrícolas antigas.

Porque desapareceu a agricultura no Saara Ocidental?

Combinação de arrefecimento climático após o século XIV, sobre-exploração de aquíferos e pressão militar dos nómadas árabes armados com camelos.

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