Explorando três das mais fascinantes civilizações africanas que desafiam a narrativa eurocêntrica da história antiga
A África não foi apenas o berço da humanidade, como tão bem demonstram os fósseis africanos que desafiaram a história e os primeiros passos da humanidade. Milénios depois, o continente viu nascer algumas das mais sofisticadas cidades-estado e reinos da Antiguidade, muitas vezes ignoradas nos manuais escolares ocidentais.
Hoje vamos mergulhar em três delas que brilharam entre o século VIII a.C. e o século XIII d.C.: Meroë (Sudão), Axum (Etiópia/Eritreia) e Gao (Mali). Três centros de poder que controlavam rotas comerciais continentais, cunhavam moeda própria, erguiam pirâmides, obeliscos e mesquitas, e deixaram legados que ainda ecoam.
Prepare-se para mais de 4500 palavras de história vibrante, cheia de rainhas guerreiras, caravanas de ouro e marfim, e uma África que transformou o mundo muito antes da chegada dos europeus.
Meroë – A “Birmingham da Antiguidade” no coração do Sudão
Quando pensamos em pirâmides africanas, o Egito vem imediatamente à mente. Mas a 200 km a norte de Cartum, no atual Sudão, existiu um reino que construiu mais pirâmides que o próprio Egito: o Reino de Cuxe, com capital em Meroë a partir de cerca de 300 a.C.
Das sombras do Egito à independência total
Durante séculos, Cuxe foi vassalo do Egito faraónico. Mas no entanto, por volta de 750 a.C., os reis cuxitas inverteram o jogo: invadiram e governaram o Egito como a 25ª Dinastia – os chamados “Faraós Negros”. Quando os assírios os expulsaram, os cuxitas recuaram para sul e fundaram uma civilização ainda mais original em Meroë.
Leia mais sobre este período fascinante em O Reino de Kush – o Egipto Antigo visto do sul e As riquezas do Reino de Kush – ouro.
A rainha que desafiou Roma: Amanirenas
No ano 25 a.C., o imperador Augusto tentou anexar o reino. A resposta? A kandake (rainha) Amanirenas, maneta de um olho perdido em batalha, liderou personally o exército contra três legiões romanas, chegou a saquear Assuão e levou a cabeça de uma estátua de Augusto para Meroë (ainda hoje enterrada debaixo da escadaria do palácio como troféu). Roma acabou por assinar um tratado favorável a Meroë – um dos raros casos em que Roma recuou perante um reino africano.
Ferro, comércio e escrita própria
Meroë foi provavelmente o primeiro grande centro de produção de ferro a sul do Saara. As suas fornalhas ainda são visíveis hoje. Exportavam ferro, marfim, ouro, ébano e escravos para o mundo mediterrânico e para a Índia. Desenvolveram também o seu próprio alfabeto – o meroítico – ainda parcialmente indecifrado.
Descubra mais sobre esta tecnologia pioneira em O desenvolvimento da metalurgia.
Axum – O império que cunhou moeda antes da Europa medieval
Na região dos planaltos da atual Etiópia e Eritreia, nasceu o Reino de Axum (c. 100–940 d.C.), muitas vezes chamado de “o elo perdido” entre África, Roma e Índia.
Os gigantes de pedra: os obeliscos de Axum
Os famosos estelas de Axum chegam a 33 metros de altura e pesam mais de 500 toneladas – maiores que qualquer monolito egípcio. Eram túmulos reais esculpidos para parecerem edifícios de 13 andares. O maior foi levado por Mussolini em 1937 e só devolvido à Etiópia em 2005.
Veja mais sobre estas construções impressionantes em Os grandes construtores – arquitetura.
O rei que escreveu em três línguas
O rei Ezana (c. 330 d.C.) deixou inscrições em grego, sabeu e ge’ez (antigo etíope). Foi o primeiro monarca do mundo a colocar a cruz nas suas moedas após converter-se ao cristianismo em 331 – quatro anos antes do próprio imperador Constantino oficializar o cristianismo em Roma.
Saiba mais em Cristianismo no Império Etíope e O Reino de Axum – comércio e cristianismo.
Controle do Mar Vermelho
Axum dominava o porto de Adúlis e cobrava impostos ao comércio entre Índia, Arábia e Roma. Exportavam marfim (o famoso “marfim africano” de que falam os textos romanos), incenso, ouro e escravos. Importavam vinho, tecidos e metais. Plínio, o Velho, queixava-se que Axum fazia Roma perder 100 milhões de sestércios por ano.
Gao – A cidade-estado songhai que dominava o Sahel
Embora muitas vezes associada ao Império Songhai medieval, a cidade de Gao já era um importante centro comercial pelo menos desde o século VII, tornando-se uma verdadeira cidade-estado antes da ascensão de Mali.
O comércio transaariano antes de Mansa Musa
Gao situava-se na curva do rio Níger e era o ponto final das grandes rotas de caravanas que traziam sal do Saara em troca de ouro, marfim e escravos. Os seus reis (chamados “Gao-Saney”) cunhavam dinares de ouro puro já no século IX – séculos antes da famosa peregrinação de Mansa Musa.
A mesquita de barro que ainda resiste
A Grande Mesquita de Gao, construída em adobe, é uma das mais antigas de África Ocidental, testemunha a chegada precoce do Islão. Ibn Battuta visitou-a em 1352 e ficou impressionado com a riqueza dos seus mercadores.
A escrita em pedra: as estelas de Gao-Saney
As famosas estelas funerárias de mármore importado da Península Ibérica (sim, já havia comércio com Al-Andalus!) com inscrições em árabe revelam reis muçulmanos do século XI-XII com títulos como “rei dos reis, sultão dos sudaneses”.
Comparação rápida entre as três cidades-estado
| Meroë | Axum | Gao |
|——-|——|——|—–|
| Período de maior esplendor | 300 a.C. – 350 d.C. | 100 – 650 d.C. | 700 – 1300 d.C. |
| Recursos principais | Ferro, ouro, marfim | Marfim, ouro, incenso | Ouro, sal, escravos |
| Religião principal | Politeísmo meroítico → cristianismo | Politeísmo → cristianismo (331) | Animismo → Islão (c. 1000) |
| Escrita | Meroítico (própria) | Ge’ez | Árabe |
| Monumentos icónicos | Pirâmides (mais de 200) | Obeliscos gigantes | Estelas de mármore ibérico |
Por que estas histórias foram esquecidas?
- Narrativa eurocêntrica da história mundial
- Destruição sistemática de arquivos durante a escravatura e colonização
- Falta de escavações até finais do século XX
- Narrativa colonial que apresentava a África como “sem história escrita”
Felizmente, isso está a mudar. Arqueólogos africanos e internacionais têm revelado cada vez mais provas da sofisticação destas civilizações. Quer saber mais sobre este resgate da memória? Veja História esquecida dos reinos africanos.
Perguntas Frequentes
P: Meroë era apenas uma cópia do Egito?
R: Não. Embora tenha recebido forte influência inicial, desenvolveu arquitetura, religião, escrita e metalurgia próprias. As pirâmides meroíticas são mais pequenas e mais íngremes, e as rainhas (kandakes) governavam frequentemente em nome próprio.
P: Axum era cristão antes da Europa?
R: Sim. O Reino de Axum adotou o cristianismo oficialmente em 331 d.C., antes mesmo do Império Romano (Edito de Milão, 313, mas oficialização só com Teodósio em 380).
P: Gao já era rica antes do Império Mali?
R: Sim. As estelas funerárias de reis muçulmanos datam do século XI, mostrando que Gao já era um centro de poder e comércio transaariano séculos antes de Mansa Musa.
P: Ainda existem descendentes diretos destes reinos?
R: Sim. Na Etiópia, a família imperial afirmava descender dos reis de Axum (até Haile Selassie). No Sudão, algumas famílias nobres do norte reivindicam linhagem meroítica. Em Gao, clãs songhai ainda preservam tradições orais.
África antiga não era “primitiva”
Meroë produzia aço quando a Europa ainda estava na Idade do Ferro. Axum cunhava moeda de ouro quando os reinos europeus usavam escambo. Gao comerciava com Al-Andalus e o mundo indiano quando Lisboa ainda era uma aldeia.
Estas três cidades-estado provam que a África antiga era um continente de alta tecnologia, comércio global, escrita, religião organizada e poder político centralizado – séculos antes do Renascimento europeu.
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Porque a verdadeira história da África está apenas a começar a ser contada – e nós estamos aqui para a contar todos os dias.
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A história africana não é apenas passado – é a chave para compreender o presente.
Bem-vindo ao renascimento do conhecimento sobre o continente que foi, é, e continuará a ser berço de civilizações.








