“Eu sou Amon, o oculto, aquele cujo nome verdadeiro ninguém conhece. O carneiro de chifres recurvados, senhor dos ventos e da fertilidade, rei dos deuses em Tebas.”
Assim se apresentava o grande deus cuja imagem mais poderosa não era um homem com cabeça de falcão, mas um majestoso carneiro – ou, em certas épocas, um homem com uma coroa encimada por duas altas plumas e um disco solar.
Amon (ou Ámon, Amoun, Amen, Amun) foi, durante quase dois milénios, o coração espiritual do Egito Antigo. Do Médio Império ao período ptolomaico, o seu culto cresceu até se fundir com Rá, tornando-se Amon-Rá, rei dos deuses e símbolo do poder faraónico. Mas há três aspectos menos conhecidos que fazem deste deus uma figura fascinante:
- A sacralidade absoluta do carneiro como sua manifestação animal.
- A surpreendente ligação com representações muito mais antigas de carneiros portando esferas (Boulaq/Bulaq, Cairo)
- O papel das princesas reais consagradas como cantoras e musicistas nos seus grandes templos
Vamos mergulhar nestes mistérios.
A Origem de Amon e o Carneiro Sagrado
Amon surge documentado desde o Império Antigo (c. 2686–2181 a.C.), mas é no Império Médio que se torna a divindade protetora da cidade de Tebas. O seu nome significa literalmente “o oculto” ou “o invisível” – uma referência ao vento e ao ar, elementos que não se veem mas se sentem.
Os egípcios viam no carneiro de chifres horizontais recurvados (Ovis longipes palaeoaegyptiacus) a encarnação perfeita de força, fertilidade e virilidade. Por isso, em Karnak e Luxor, Amon era representado:
- Como homem com coroa de plumas
- Como carneiro
- Como homem com cabeça de carneiro
No grande templo de Karnak existia até uma avenida de esfinges com corpo de leão e cabeça de carneiro – os famosos “carneiros de Amon” que protegiam o caminho sagrado. Quem quiser ver imagens impressionantes destas avenidas pode clicar aqui: A Religião e Mitologia dos Egípcios.
O Carneiro com Esferas de Boulaq – Uma Representação Mais Antiga que o Próprio Amon-Rá?
Um dos achados mais intrigantes do Museu do Cairo provém do bairro de Boulaq (antigo porto do Cairo). Trata-se de pequenos amuletos e estatuetas pré-dinásticas e do Império Antigo que mostram carneiros com grandes esferas entre os chifres ou no dorso.
Estes carneiros-esfera são anteriores à fusão Amon-Rá (que acontece só a partir da XI dinastia. Alguns egiptólogos (como Geraldine Pinch e Christiane Zivie-Coche) sugerem que estes objetos podem estar ligados a um deus criador primitivo do Alto Egito, talvez Khnum (o deus-oleiro também representado como carneiro), ou mesmo a um culto astral pré-dinástico.
O facto é que, quando Amon sobe ao poder em Tebas, absorve iconografia muito antiga – incluindo a imagem do carneiro portando o disco solar ou esferas. Assim, o “carneiro de Amon” que conhecemos nos templos do Novo Império já é o resultado de uma síntese de milénios.
Se tem curiosidade sobre como os símbolos viajam no tempo, recomendo a leitura de Arte Rupestre na África: Das Civilizações e Evolução Arte na Pré-História Africana.
As “Cantoras de Amon” – Princesas Reais Consagradas como Musicistas Sagradas
Um dos aspetos mais belos e menos divulgados do culto de Amon é o papel das mulheres da família real como “Cantoras de Amon” ou “Esposas do Deus”.
A partir da XVIII dinastia, a Grande Esposa Real (e a princesa mais velha recebiam o título de “Esposa Divina de Amon” (hemet netjer en Amen). Mas havia também dezenas de princesas que, sem serem rainhas, eram consagradas ao serviço musical do deus.
Estas mulheres:
- Viviam dentro do recinto do templo de Karnak
- Tocavam sistro, harpa, tamboril e menat
- Lideravam coros durante as grandes festas Opet e do Vale
- Tinham direito a tumbas próprias no Vale dos Nobres e em Medinet Habu
Nefertari, filha de Ahmose-Nefertari, foi uma das primeiras. Mais tarde, na XIX e XX dinastias, quase todas as filhas de Ramsés II aparecem com o título de “Cantora de Amon”. A música era considerada magia pura – acreditava-se que o som do sistro afastava as forças do caos e agradava o deus oculto.
Quer saber mais sobre o poder feminino no Egito Antigo? Veja As Mulheres Poderosas da Antiguidade e O Papel da Mulher na Sociedade Antiga Sociedade.
Amon Além do Egito: Kush e o Carneiro Sagrado na Núbia
Quando os faraós da XXV dinastia (os “faraós negros” de Kush”) conquistaram o Egito, levaram o culto de Amon para o sul. Em Napata e Meroé, o deus continuou a ser representado como carneiro, mas agora com características locais: chifres mais largos e, por vezes, com o disco solar entre eles.
O famoso templo de Amón de Gebel Barkal (Património Mundial da UNESCO) tem uma avenida de carneiros idêntica à de Karnak – prova da continuidade cultural entre Egito e Núbia.
Leia mais em O Reino de Kush: Influência na Antiguidade e A Arte e Arquitetura da Antiga Núbia.
Cronologia Rápida do Culto de Amon
| Período | Evento Principal |
|---|---|
| Pré-dinástico / Império Antigo | Carneiros com esferas em Boulaq e hieracômpolis |
| Império Médio (c. 2050–1710 a.C.) | Amon torna-se patrono de Tebas |
| XI–XII dinastia | Primeiros templos em Karnak |
| Novo Império (1550–1070 a.C.) | Amon-Rá, deus estatal; construção massiva de Karnak e Luxor |
| XVIII dinastia | Título “Esposa Divina de Amon” criado |
| Época Raméssida | Princesas-cantoras em massa |
| XXV dinastia (kushita) | Amon adorado como carneiro em Napata e Meroé |
| Período Greco-Romano | Oráculo de Amon em Siwa (visita de Alexandre Magno em 331 a.C.) |
Porquê o Carneiro e Não Outro Animal?
Os egípcios escolhiam animais com base em características observáveis:
- O carneiro lidera o rebanho → liderança divina
- Os chifres recurvados lembram o crescente lunar → renovação
- A potência sexual do carneiro → fertilidade e criação
Khnum (deus-oleiro) e Herishef (deus de Heracleópolis) também eram carneiros, mas Amon absorveu-os e tornou-se o carneiro por excelência.
Perguntas Frequentes Sobre Amon e o Carneiro Sagrado
P: O carneiro de Amon é o mesmo que o carneiro de Khnum?
R: Não exatamente. Khnum era o deus-oleiro criador em Elefantina. Amon “herdou” a forma de carneiro, mas com coroa de plumas e disco solar.
P: Ainda existem carneiros sagrados hoje no Egito?
R: Não. O último carneiro sagrado conhecido (chamado “Banebdjedet”) morreu no período ptolomaico. Hoje só vemos as estátuas.
P: As princesas-musicistas podiam casar-se?
R: Algumas sim, outras faziam voto de castidade. A “Esposa Divina de Amon” no Terceiro Período Intermédio e Época Baixa chegou a ter poder político quase faraónico.
P: Qual é a ligação entre Amon e o deus grego Zeus-Ammon?
R: Quando Alexandre conquistou o Egito, visitou o oráculo de Amon em Siwa e foi declarado “filho de Zeus-Ammon”. Os gregos identificaram Amon com Zeus pelo carneiro e pela ideia de deus oculto do céu.
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Fontes e leitura complementar no site
- A Religião dos Povos da África Ocidental
- As Crencas Religiosas no Egito
- Ramsés II: O Faraó das Estátuas Colossais
- Nefertari – Primeira Esposa de Ramsés II
A história de Amon é a história de África – antiga, profunda, muitas vezes esquecida, mas sempre viva.
Até ao próximo mergulho no passado! 🐏✨








