“Eu sou Horus, o grande falcão que está sobre os estandartes dos deuses; aquele que voa alto e vê tudo.”
– Textos das Pirâmides, Utterance 250

Desde tempos imemoriais, muito antes das grandes pirâmides ou dos nomes dos faraós ecoarem pelo Nilo, o povo que habitava o vale já olhava para o céu e via um falcão planando. Esse pássaro, símbolo máximo de altitude, visão aguçada e poder real, tornou-se Horus – o deus que encarna o próprio faraó vivo, o faraó, e que, em muitas cidades, dividia templos e culto com a doce e feroz deusa Hátor.

Neste artigo mergulhamos fundo na origem remota do culto ao falcão, nas surpreendentes placas de arenito pré-dinásticas e na forma como Horus e Hátor se entrelaçaram na alma religiosa do Egito antigo.

As Origens Mais Antigas: O Falcão Antes de Horus Ter Nome

Quando falamos de evolução dos primeiros seres humanos e do berço da humanidade, raramente imaginamos que a mesma terra que viu nascer Homo sapiens também gerou alguns dos símbolos religiosos mais duradouros da história.

Nas escavações de sítios pré-dinásticos (c. 4400–3100 a.C.), como Naqada, Hieracômpolis e Abidos, arqueólogos encontraram placas votivas e paletas de arenito com falcões finamente cinzelados – imagens que precedem em séculos qualquer menção escrita ao nome “Horus”. Essas representações mostram o pássaro com asas abertas sobre um palácio ou sobre o símbolo do sereḫ (a fachada palaciana), indicando já o conceito de realeza celestial.

Estes achados comprovam que o culto ao falcão é anterior à unificação do Egito e provavelmente nasceu no Alto Egito, onde a cidade de Nekhen (Hieracômpolis) era o grande centro religioso do deus-falcão. Se quiser saber mais sobre os locais pré-históricos mais antigos e como a arqueologia pré-histórica na África nos ajuda a compreender estas raízes, vale muito a pena clicar nos links.

Horus: O Rei dos Deuses e Faraó Vivo

Na mitologia clássica, Horus é o filho de Ísis e Osíris, o herói que vingou o pai e reclamou o trono do Egito contra Seth. Mas essa é apenas a versão osiríaca, mais tardia. O Horus é, na verdade, uma fusão de vários deuses-falcões locais:

  • Haroeris (“Horus, o Ancião”) – forma primordial do Alto Egito
  • Hor-akhty (“Horus do Horizonte”) – o sol nascente
  • Horus-Behdety – o falcão alado de Behdet (Damanhur)
  • Harsiesis – “Horus, filho de Ísis”

O faraó era considerado a manifestação viva de Horus. Cada coroação era descrita como “a aparição do Falcão sobre o sereḫ”. Quando o rei morria, tornava-se Osíris e o novo faraó tornava-se o novo Horus. Esta teologia explica porque quase todos os reis usavam o nome “Horus” como primeiro dos cinco nomes reais.

Hátor, a Companheira Celestial do Falcão

Embora hoje associemos Horus sobretudo a Ísis (sua mãe/esposa na versão osiríaca), em muitas cidades do Egito antigo o par divino principal era Horus e Hátor.

Em Dendara, o grande templo de Hátor celebra a “União com Horus”. Em Kom Ombo, Horus, o Ancião (Haroeris) e Hátor têm capelas lado a lado. Em Edfu, o maior templo ptolemaico dedicado a Horus, celebra-se anualmente o “Belo Encontro” em que a estátua de Hátor viajava de Dendara para passar 14 dias com seu esposo Horus.

Esta relação não é apenas romântica: Hátor, como “Senhora do Sicômoro” e “Olho de Rá”, representa o aspecto feminino do poder real que completa o masculino de Horus. Juntos, formam o casal perfeito da realeza divina.

Representações Artísticas: Do Arenito Pré-Dinástico ao Ouro Ptolemaico

As mais antigas imagens conhecidas são as placas e paletas de arenito já mencionadas. Mas ao longo de 3.000 anos o falcão foi representado de formas cada vez mais formas:

  • Falcão com coroa dupla (Alto e Baixo Egito)
  • Falcão com disco solar (Hor-akhty)
  • Falcão alado protegendo o nome do faraó com as asas (o famoso “Horus alado”)
  • Criança (Harpócrates) com o dedo na boca e trança lateral
  • Homem com cabeça de falcão usando a coroa pschent

Se quiser ver exemplos incríveis de como a arte rupestre na África e a evolução da arte na pré-história africana influenciaram estas representações posteriores, não deixe de explorar esses artigos.

Templos Principais de Horus (e de Horus + Hátor)

CidadeNome AntigoDivindade PrincipalObservação
HieracômpolisNekhenHorus de NekhenCapital pré-dinástica do culto ao falcão
EdfuBehdetHorus Behdety Maior templo ptolemaico perfeitamente preservado
Kom OmboNubtHorus, o Ancião + Sobek Templo duplo
DendaraIunetHátor (com Horus) Festival anual do “Belo Encontro”
LetópolisKhemHorus-Khenty-Khem Forma cega de Horus

O Falcão nas Tumbas e o Céu Após a Morte

Mesmo após a morte, o faraó continuava ligado ao falcão. Nos Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) o rei morto declara:

“Eu voo como um falcão, eu grasno como um ganso, eu sou o senhor da eternidade.”

Nas tumbas privadas do Império Novo, o falcão com disco solar aparece frequentemente nos tetos, simbolizando que o defunto se transforma em Horus e voa para o céu.

Curiosidades que Você Provavelmente Não Sabia

  1. O nome “Horus” (Ḥr) significa simplesmente “o que está no alto” ou “o distante”.
  2. Em Hieracômpolis foi encontrada a famosa cabeça de maça do Rei Escorpião (c. 3100 a.C.) com o falcão já usando a coroa branca do Alto Egito.
  3. Durante a festa de Behdet, sacerdotes soltavam falcões vivos – acredita-se que a alma do deus entrava no pássaro solto.
  4. Cleópatra VII usou o título “Filha de Horus” e aparece em relevos como uma pequena figura protegida pelas asas do deus-falcão.

Perguntas Frequentes

1. Horus e Hátor eram casados em todo o Egito?
Não. A associação mais forte acontece no Alto Egito (Edfu, Dendara, Kom Ombo). No Baixo Egito predominava Horus + Ísis ou Horus filho de Nut.

2. Por que o faraó era Horus e não Rá ou Osíris?
Porque Horus representa o poder ativo, o rei vivo que governa aqui e agora. Rá é o criador, Osíris o rei morto e fertilidade, Horus o rei vivo e guerreiro.

3. Ainda existem falcões sagrados no Egito hoje?
Sim! O falcão-peregrino (Falco peregrinus) e o falcão-lanário ainda são protegidos em algumas regiões e lembram o antigo culto.

4. Qual a relação entre Horus e o “Olho de Horus”?
O Olho esquerdo de Horus (wadjet) foi ferido por Seth e curado por Thoth. Tornou-se símbolo de proteção, integridade e realeza – o famoso amuleto que usamos até hoje.

5. As placas pré-dinásticas já mostram Horus ou apenas “um falcão”?
Tecnicamente ainda não é “Horus” com nome escrito, mas o símbolo já é o mesmo: falcão + sereḫ = realeza. Por isso os egiptólogos chamam-no de “proto-Horus”.

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Porque a história da África não começa nas pirâmides nem termina com elas – começa muito antes, num falcão que voava sobre o deserto e ainda hoje nos ensina a olhar para o céu.

✦ Até ao próximo voo!