Descubra como um dos povos mais antigos do Corno de África deixou marcas indeléveis na pré-história da humanidade, desde a domesticação animal até à expansão das línguas afro-asiáticas.

A bacia do Lago Turkana, no norte do Quénia e sul da Etiópia, é um dos lugares mais importantes do planeta para compreender a evolução humana. Aqui encontramos não só alguns dos fósseis mais antigos de Homo sapiens e de ferramentas líticas, como também vestígios de sociedades complexas que viveram entre 5000 e 1000 a.C. Entre elas destacam-se os grupos que os arqueólogos e linguistas chamam hoje de Baz.

O termo “Baz” foi proposto nos anos 1980–1990 por investigadores como Christopher Ehret e Roger Blench para designar os antigos falantes de cuchítico oriental que ocupavam a região do Lago Turkana antes da chegada dos nilóticos e dos bantos. Eram pastores-agricultores que domesticaram o gado, o camelo e a cabra muito antes de muitos povos da Europa ou da Ásia o fazerem.

Quem Foram os Baz? Origem do Nome e Contexto Linguístico

A palavra “Baz” não é um auto-designação antiga (não sobreviveu registada), mas um nome reconstruto a partir de raízes proto-cuchíticas orientais. Deriva da raiz baʕ-/baz- que significa “povo” ou “grupo de gente” em várias línguas cuchíticas modernas (por exemplo, no rendille e no somali ainda hoje se encontram formas próximas).

Estes povos pertenciam ao ramo cuchítico oriental da grande família afro-asiática – a mesma família que inclui o antigo egípcio, o berbere, o haúça e as línguas semíticas. A sua presença na bacia do Turkana está documentada por:

  • Cerâmica do tipo “Nderit” ou “Turkwel tradition” (4000–2000 a.C.)
  • Sítios de pesca e pastoril como Lothagam, Jarigole e Koobi Fora
  • Enterros megalíticos com pilares de pedra (os famosos “pillar sites”)
  • Evidências genéticas em populações actuais como os Rendille, Samburu, Dasanech e Elmolo

Se quiser saber mais sobre os primeiros passos da humanidade em África, leia o artigo Primeiros Passos da Humanidade, onde explico o contexto mais amplo da pré-história africana.

A Vida dos Baz: Uma Sociedade Pastoral Avançada

Os Baz destacaram-se por três grandes inovações que mudaram para sempre a história africana:

  1. Primeira domesticação do camelo no continente (cerca de 3000–2500 a.C.), muito antes do Magrebe ou da Arábia.
  2. **Construção de grandes cemitérios megalíticos com pilares de basalto de até 4 metros de altura – verdadeiros “menires” africanos.
  3. Criação de um sistema de pesca lacustre com arpões de osso e redes que permitia sustentar populações densas à volta do antigo lago (na época muito maior do que hoje).

Estes traços estão bem documentados em sítios como:

  • Jarigole – cemitério com mais de 300 pilares e oferendas de contas de concha
  • Lothagam North – um dos primeiros locais de domesticação de gado na África Oriental
  • Kalokol Pillar Site – pilares alinhados astronomicamente

Se tem curiosidade sobre como os povos pré-históricos lidavam com as mudanças climáticas, recomendo vivamente Impacto da Mudança Climática na Pré-História, onde falo exactamente das oscilações do nível do Lago Turkana.

Ligação Genética e Linguística com Povos Actuais

Estudos de ADN antigo (publicados em 2019–2023) mostram que os Baz tinham uma mistura genética entre:

  • Antigos caçadores-coletores da África Oriental
  • Populações com ancestralidade do Levante (chegadas cerca de 5000–4000 a.C.)
  • Pequena contribuição de pastores eurasianos (provavelmente via Egipto/Núbia)

Hoje essa assinatura genética é mais forte entre os Dasanech, Elmolo, Rendille e alguns clãs Borana.

Linguisticamente, palavras como:

  • malaa (gado) → somali/rendille “mal”
  • gaala (camelo) → quase idêntico em todas as línguas cuchíticas modernas
  • lukkah (galinha) – ainda hoje usada pelos Arbore e Dasanech

são herança directa dos Baz.

Por Que o Nome “Baz” É Importante Hoje?

Durante muito tempo a história da África Oriental pré-nilótica foi contada como “vazia” ou “habitada apenas por caçadores-coletores”. O reconhecimento dos Baz devolve agência histórica a povos que domesticaram animais, construíram monumentos e criaram redes comerciais milhares de anos antes dos reinos de Axum ou do Grande Zimbabwe.

Além disso, compreender os Baz ajuda-nos a explicar:

  • A expansão das línguas cuchíticas até à Tanzânia
  • A origem das sociedades pastoris do Corno de África
  • A resistência cultural de grupos minoritários como os Elmolo ou os Waata

Se quiser aprofundar a expansão dos povos cushitas, veja o artigo Expansão dos Povos Bantu pela África – lá mostro o contraste entre a chegada dos bantos e a presença anterior dos cuchitas.

Os Grandes Sítios Arqueológicos dos Baz

SítioPeríodo aproximadoDescobertas principais
Lothagam North3000–2000 a.C.Primeiros indícios de gado domesticado na região
Jarigole2900–2400 a.C.300+ pilares megalíticos, contas de concha do Índico
Kalokol2500–1500 a.C.Alinhamentos astronómicos, arpões de osso
Namoratunga2300 a.C.Possíveis calendários lunares gravados em pedra
Koobi Fora (área)4000–1000 a.C.Cerâmica Nderit, restos de peixe e gado

Estes locais estão classificados como Património Mundial pela UNESCO desde 1997 (conjunto “Lago Turkana National Parks”).

Perguntas Frequentes sobre os Baz

P: Os Baz são os mesmos que os “cushitas”?
R: Não exactamente. “Cushita” é o ramo linguístico inteiro. “Baz” refere-se especificamente ao grupo ancestral que viveu na bacia do Turkana e deu origem aos ramos baixo-cuchítico (rendille, somali, oromo, afar, etc.).

P: Têm relação com o Reino de Punt ou com os antigos egípcios?
R: Sim, indirecta. O mítico Reino de Punt (mencionado nos textos egípcios desde 2500 a.C.) provavelmente incluía populações cuchitas costeiras que comerciavam com os Baz do interior.

P: Ainda existem descendentes directos dos Baz?
R: Sim. Os Elmolo (apenas cerca de 300 falantes hoje), alguns clãs Dasanech e os Waata/Rendille conservam traços culturais e genéticos muito próximos.

P: Por que quase ninguém ouve falar deles?
R: Porque a narrativa dominante da África Oriental sempre privilegiou os reinos nilóticos (como o de Cush/Núbia) e, mais tarde, os bantos. Os Baz eram sociedades sem escrita e sem Estado centralizado – o que não significa que fossem “primitivos”.

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