O Magreb – o grande “Oeste” do mundo antigo – não era um deserto vazio à espera de colonizadores. Muito antes de Cartago brilhar no horizonte ou de Roma estender as suas águias, a região já fervilhava de vida, cultura e poder. Três grandes grupos autóctones dominavam o território e história: os Mouras (ou Maures), os Númidas e os Getulos. Todos eles pertenciam ao vasto tronco berbere (Amazigh), mas com identidades, territórios e modos de vida distintos.
Este artigo mergulha fundo nestes povos que, muitas vezes, são reduzidos a meras notas de rodapé nas histórias centradas no Mediterrâneo. Vamos perceber quem eram, como viviam, como se organizavam e, sobretudo, como resistiram – ou se aliaram – aos grandes impérios que os rodeavam.
“Os líbios são mais saudáveis que todos os outros homens conhecidos, quer pela qualidade do clima, quer pela da terra; mas penso que a causa principal é o facto de não usarem roupa que aperte o corpo.”
– Heródoto, Histórias, Livro IV
Heródoto já sabia: estávamos perante povos livres, adaptados ao seu ambiente, orgulhosos da sua diferença.
Quem eram os povos do Magreb pré-fenício?
Quando os primeiros navegadores fenícios fundaram Útica (c. 1100 a.C.) e, mais tarde, Cartago (814 a.C.), encontraram costas e interior já habitados por populações que falavam línguas berberes e que deixaram marcas desde o Neolítico. A arte rupestre na África das civilizações e os artefatos pré-históricos do Saara e do Atlas mostram uma continuidade cultural de milhares de anos.
Estes povos não eram “bárbaros” à espera de civilização: já praticavam agricultura, domesticação de animais e metalurgia do cobre e do bronze. A revolução neolítica na África chegou ao Magreb pelo menos desde 6000–5000 a.C.
Os Mouras (Maures / Mauri)
Origem e território
Os Mouras ocupavam o actual Marrocos, grande parte da Argélia ocidental e o norte da Mauritânia. O seu nome deu origem ao topónimo “Mauritânia” romana e, mais tarde, ao país moderno.
Sociedade e cultura
- Cavaleiros excecionalíssimos – a cavalaria moura tornou-se lendária em Roma.
- Organização tribal com reis locais (os famosos “reis mouros” que aparecem nas moedas).
- Religião animista com culto a divindades celestes (o Sol e a Lua eram centrais) e a antepassados.
Figuras históricas
O rei Baga, o rei Bocchus I e, mais tarde, o célebre Juba II (rei culto, casado com Cleopatra Selene, filha de Cleópatra e Marco António) mostram como os mouras souberam jogar com Cartago e Roma.
Quer saber mais sobre a realeza norte-africana? Veja o artigo reis, rainhas e guerreiros – personalidades.
Os Númidas (Numidae)
O coração do Magreb central
Os Númidas dominavam o território da actual Argélia oriental e Tunísia ocidental – a famosa “Numídia” que Roma mais tarde transformaria em província.
Os maiores cavaleiros da Antiguidade
Políbio e Lívio não se cansam de elogiar a sua cavalaria ligeira, capaz de manobras impressionantes sem estribos nem selas rígidas. Eram os “hussardos” do mundo antigo.
Reis lendários
- Syphax (aliado e depois inimigo de Cartago)
- Masinissa – o grande unificador númida, aliado de Roma contra Aníbal, fundador da dinastia que durou até Juba I
- Jugurta – o genial guerreiro que desafiou Roma durante sete anos (Guerra Jugurtina, 112–105 a.C.)
A história de Jugurta é tão fascinante que mereceu artigo próprio: histórias de conquista na antiguidade.
Os Getulos (Gaetuli)
Os senhores do deserto e do pré-Saara
Viviam mais a sul: o actual sul da Argélia, Líbia ocidental e norte do Mali. Eram os verdadeiros mestres das rotas transaarianas antes dos garamantes e dos tuaregues.
Modo de vida
- Pastores nómadas e seminómadas
- Excelentes arqueiros e lanceiros
- Controlavam o comércio de sal, ouro e marfim que subia do interior
Quando Roma chegou, mais tarde, tentou submetê-los, os Getulos revoltaram-se várias vezes (a grande revolta de Tacfarinas, 17–24 d.C., quase derrubou a província da África).
Organização política e social comum aos três grupos
Apesar das diferenças, partilhavam traços marcantes:
| Característica | Mouras | Númidas | Getulos |
|---|---|---|---|
| Língua | Berbere antigo | Berbere antigo | Berbere antigo |
| Base económica | Agricultura + cavalos | Agricultura + cavalaria | Pastoreio + caravanas |
| Arma principal | Cavalaria pesada/ligeira | Cavalaria ligeira | Arco e lança |
| Relação com Cartago | Tributários / aliados | Aliados e rivais | Comércio indireto |
| Relação com Roma | Aliados tardios | Reino cliente famoso | Resistência feroz |
A resistência e a adaptação face aos impérios
Com Cartago
Os númidas forneceram a famosa cavalaria que quase destruiu Roma em Canas (216 a.C.). Mas Masinissa trocou de lado no momento certo e tornou-se o grande vencedor.
Com Roma
Depois da queda de Cartago (146 a.C.), os três grupos foram progressivamente integrados:
- Reinos clientes (Numídia de Masinissa e Juba I)
- Províncias romanas (Africa Proconsularis, Mauretania Caesariensis, Mauretania Tingitana)
- Auxiliares militares – a cavalaria moura e númida tornou-se a elite das tropas romanas no Ocidente.
Muitos imperadores e senadores romanos tinham sangue berbere (Septímio Severo, nascido em Leptis Magna, era de origem líbio-púnica com forte componente berbere).
Legado cultural e genético
Os actuais povos amazigh (berberes) de Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e até das ilhas Canárias (guanches) são os descendentes diretos destes três grandes ramos. A língua tamazight, a escrita tifinagh, os tapetes, a joalharia, a música gnawa e até a fantasia dos cavaleiros do Atlas mantêm viva essa memória milenar.
Se quiser aprofundar a contribuição da pré-história africana e perceber como tudo começou muito antes dos fenícios, espreite os nossos artigos sobre a África – o berço da criatividade humana e primeiros humanos – uma jornada africana.
Perguntas frequentes
P: Os berberes são árabes?
R: Não. São um grupo étnico e linguístico próprio (família afro-asiática, mas ramo diferente do árabe). A arabização veio só a partir do século VII d.C.
P: Massinissa era númida ou getulo?
R: Númida, da tribo dos Massylii (leste da Numídia). Os getulos viviam mais a sul.
P: As mulheres tinham poder nestas sociedades?
R: Sim. Rainhas como Dihya (a Kahina), Sophonisba ou a própria mãe de Juba II mostram que as mulheres berberes podiam herdar, governar e comandar exércitos.
P: Porque é que Roma temia tanto a cavalaria númida?
R: Mobilidade extrema, capacidade de atacar e fugir em segundos, conhecimento perfeito do terreno. Foram decisivos em Zama (202 a.C.) – ironicamente, contra Aníbal.
P: Ainda existem descendentes diretos hoje?
R: Sim. Milhões de marroquinos, argelinos, tunisinos, líbios e tuaregues falam tamazight e orgulham-se dessa herança.
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Porque a História da África não começa com os fenícios, nem acaba com a colonização.
A História da África é a História da Humanidade.
Até ao próximo mergulho,
Equipe Africana História 🌍








