A África Antiga é um mosaico fascinante de civilizações sedentárias e povos nômades que, muitas vezes, moldaram a história com a mesma intensidade que os grandes impérios do Nilo. Entre esses povos destacam-se os Nobatas (também conhecidos como Nubas em algumas fontes clássicas) e os Blêmios (identificados hoje como os antepassados dos Bedja ou Beja). Ambos pertenciam ao chamado Grupo X da classificação linguística afro-asiática – o ramo cuxítico – e eram descritos pelos autores greco-romanos como nômades belicosos, temidos pelas suas incursões rápidas e pela adaptação implacável aos desertos orientais do Nilo.

Este artigo mergulha na história desses guerreiros do deserto, explorando as suas origens, modo de vida, interações com os grandes impérios vizinhos e a surpreendente organização política dos Bedja em vários “reinos” independentes. Uma narrativa que nos lembra que a África: O Berço da Civilização Humana não foi apenas feita de pirâmides e cidades monumentais, mas também de cavaleiros do deserto que desafiaram Roma e o Egito.

Origens Antigas: Das Savanas à Margem do Deserto

As raízes dos Nobatas e Blêmios remontam à Pré-História Africana, quando grupos de caçadores-coletores se adaptaram às mudanças climáticas que transformaram vastas áreas verdejantes em desertos. Estudos arqueológicos revelam que, já na época dos Primeiros Passos da Humanidade, populações no Corno de África e no Vale do Nilo começaram a desenvolver culturas pastoris nômades.

Os Blêmios aparecem nas fontes egípcias já no Antigo Reino como “Medjay”, policiais do deserto recrutados pelos faraós. Com o tempo, porém, tornaram-se independentes e beligerantes. Já os Nobatas surgem mais tarde, possivelmente como uma ramificação dos povos cuxíticos que migraram para norte ao longo do Nilo. Como exploramos em Migracoes Pre-Historicas a Africa, essas movimentações foram impulsionadas pelo Impacto Mudanca Climatica Pre-Historia, criando sociedades resilientes capazes de sobreviver onde outros pereceriam.

“Os Blêmios vivem nos desertos orientais, montados em camelos rápidos, atacando inesperadamente e desaparecendo no areal como fantasmas.”
— Estrabão, Geografia, século I a.C.

Os Nobatas: Do Recrutamento Romano à Fundação de Reinos

No período romano tardio, os Nobatas foram recrutados como foederati (aliados) pelo Império para conter as incursões dos próprios Blêmios. Diocleciano, no final do século III, retirou a fronteira romana de Assuã para norte e instalou os Nobatas como uma espécie de “tampão” contra os vizinhos mais agressivos.

Este povo, que os autores bizantinos também chamavam de “Nubas”, acabou por se sedentarizar parcialmente e fundar reinos no Alto Nilo, como Nobatia (ou Nobadia), com capital em Pachoras (atual Faras). A sua cristianização no século VI, juntamente com os reinos vizinhos de Makuria e Alodia, marcou o nascimento das chamadas “Nubias Cristãs”. Se quiser saber mais sobre essa transição, recomendo a leitura de Os Grandes Imperios Nubios e A Arte e Arquitetura da Antiga Nubia.

Os Nobatas destacaram-se pela fusão de elementos nômades com a cultura nilótica: mantiveram a mobilidade militar, mas adotaram a agricultura irrigada e construíram igrejas magníficas cujos frescos ainda impressionam hoje.

Os Blêmios/Bedja: Os Verdadeiros Senhores do Deserto Oriental

Os Blêmios (em grego: Blemmyes) são talvez o povo mais lendário desta narrativa. Habitavam a região entre o Nilo e o Mar Vermelho – o atual Deserto Oriental do Egito e Sudão, além do norte da Eritreia e Etiópia. Os autores clássicos descreviam-nos como “acéfalos” (sem cabeça), mito que provavelmente nasceu da forma como usavam escudos ou peles sobre os ombros.

Na realidade, eram exímios cavaleiros de camelos, mestres da guerra de guerrilha. Durante os séculos III a VI d.C., atacaram repetidamente o Egito romano/bizantino, chegando a saquear Assuã e Filae. Procópio de Cesareia relata que o general romano Flavius Belisarius lutou contra eles no reinado de Justiniano.

Organização em “Reinos” Independentes

Contrariamente à imagem de tribos desorganizadas, os Bedja organizavam-se em vários reinos ou confederações tribais autónomas. Fontes árabes medievais (como Al-Masudi e Ibn Hawqal) mencionam cinco ou seis “reinos” Bedja:

  • Naqis
  • Baqlin
  • Bazin
  • Jarin
  • Qat’a
  • Belgu

Cada um tinha o seu próprio rei (chamado hadarb ou malk) e controlava rotas comerciais importantes de ouro, marfim e esmeraldas. Esta estrutura política permitiu-lhes resistir durante séculos tanto ao Império Axumita (ver O Reino de Axum o Elo Perdido) como ao Califado Islâmico.

Os Bedja só foram definitivamente islamizados entre os séculos XIII e XV, mantendo até hoje a sua língua cuxítica (Tu Bedawie) e muitas tradições nômades. Para uma visão mais ampla sobre As Relacoes e Acordo de Comercio na região, vale a pena explorar também Caravanas do Saara Comercio e Conexoes.

Modo de Vida: Adaptação Extrema e Cultura Guerreira

A vida nômade destes povos era ditada pelo ritmo das chuvas escassas e pela busca de pastagens. Criavam camelos, cabras e ovelhas, praticando uma pastorícia transumante. A guerra era não só meio de sobrevivência, mas também de prestígio social.

Armados com lanças, arcos e espadas curvas, os Blêmios eram famosos pela velocidade dos ataques. As mulheres participavam ativamente na sociedade, muitas vezes gerindo os acampamentos enquanto os homens combatiam – tema que ecoa em As Mulheres Poderosas da Antiguidade e O Papel da Mulher na Sociedade Antiga.

A sua religião era animista, com culto a divindades locais como Mandulis (no templo de Kalabsha). Após a cristianização parcial no século VI, alguns Nobatas adotaram o cristianismo monofisista, enquanto os Bedja resistiram mais tempo.

Interações com os Grandes Impérios

Com o Egito Ptolemaico e Romano

Desde Ptolomeu II, os Blêmios foram uma ameaça constante. Ergameno, rei de Meroé, aliou-se a eles contra os Ptolomeus. Mais tarde, sob Roma, chegaram a controlar temporariamente a Dodecasqueno (os Doze Quilómetros ao sul de Assuã).

Com o Reino de Kush

A relação era ambígua: ora aliados, ora rivais. Os reis de Meroé recrutavam mercenários Medjay/Blêmios, mas também sofriam incursões. Veja mais em Reino de Kush Influencia na Antiguidade e Reino de Kush e Sua Relacao com o Egito.

Com Axum e o Mundo Bizantino

No século IV, o rei axumita Ezana menciona vitórias sobre os “Bega” (Bedja). Mais tarde, Justiniano negociou tratados com Nobatas e Blêmios para proteger a fronteira sul.

A Transição para o Islão

Com a conquista árabe do Egito (642 d.C.), os Bedja assinaram o famoso baqt – um tratado que garantia paz em troca de escravos anuais. Este acordo durou séculos e é um dos exemplos mais antigos de diplomacia afro-árabe.

Legado Contemporâneo dos Bedja

Hoje, cerca de 2-3 milhões de Bedja vivem no Sudão, Eritreia e Egito. Mantêm uma forte identidade nômade, apesar das pressões da modernidade. A sua língua continua viva, e muitas tradições – como a espada curva e a poesia oral – sobrevivem.

O legado destes “nômades belicosos” lembra-nos que a história africana não pode ser reduzida aos grandes estados sedentários. Para aprofundar esta visão, consulte A Africa que Transformou o Mundo e Imperios Africanos Antigos Gloria.

Perguntas Frequentes

Quem eram os Nobatas?

Os Nobatas eram um povo cuxítico que se estabeleceu no Alto Nilo no período romano tardio. Tornaram-se aliados de Bizâncio e fundaram o reino cristão de Nobadia.

Os Blêmios são os mesmos que os Bedja atuais?

Sim, a maioria dos historiadores identifica os Blêmios antigos com os antepassados dos Bedja/Beja modernos, que falam a língua Tu Bedawie.

Quantos “reinos” tinham os Bedja?

Fontes árabes medievais referem cinco ou seis reinos independentes, cada um com o seu próprio líder.

Porque eram considerados “belicosos”?

A sua economia pastoril nômade e a necessidade de controlar rotas comerciais e poços levavam a frequentes incursões contra vizinhos sedentários.

Os Nobatas e Blêmios lutaram entre si?

Sim, especialmente no século IV-V, quando os Nobatas foram instalados pelos romanos para conter os Blêmios.

Qual foi o impacto do cristianismo nestes povos?

Os Nobatas converteram-se e criaram uma brilhante cultura cristã núbia. Os Bedja resistiram mais, adotando o Islão só séculos depois.

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