O rio Nilo não separa povos – ele une histórias. Durante milénios, doou vida à mesma família cultural que, de Assuão a Khartum, falava línguas aparentadas, adorava deuses muito semelhantes e construía pirâmides com a mesma técnica. A única diferença visível entre os habitantes do Alto Egito e os da Baixa Núbia era, segundo os próprios egípcios antigos, a tonalidade da pele: os kemitas (egípcios) chamavam-se a si próprios “os negros” (kmt = preto) e chamavam aos seus vizinhos do sul Nehesyu – “os muito negros”.
Este artigo mergulha fundo nessa irmandade esquecida, destruindo mitos eurocêntricos e recolocando os núbios no centro da história que sempre lhes pertenceu.
Quem eram os Nehesyu?
Os egípcios utilizavam o termo Nehesyu (ou Nehesy) para designar os habitantes da região entre a 1.ª e a 5.ª catarata do Nilo – a chamada Baixa Núbia (actual norte do Sudão e extremo sul do Egito). Eram povos de pele muito escura, cabelos crespos e traços negro-africanos inconfundíveis nas pinturas e relevos egípcios.
“Vim do país de Nehesy, o país dos negros verdadeiros.”
— Inscrição de Harkhuf, governador de Elefantina, IV dinastia (c. 2600 a.C.)
Os Nehesyu organizavam-se em confederações tribais poderosas (C-Grupo, Reino de Kerma, depois Kush). Dominavam o comércio de ouro, marfim, ébano e gado entre a África subsariana e o Mediterrâneo muito antes da unificação do Egito.
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Kerma: a primeira superpotência núbia (2500–1500 a.C.)
Enquanto Mênfis e Tebas ainda eram aldeias, Kerma já era uma metrópole de tijolo cru com palácios, templos e tumbas colossais (as famosas deffufas). Os seus reis foram enterrados com centenas de sacrifícios humanos – prática que os próprios egípcios adoptaram mais tarde.
Os arqueólogos encontraram em Kerma cerâmica mais fina que a egípcia da mesma época e estátuas de faraós capturados. Sim, os Nehesyu derrotaram e humilharam o Egito várias vezes durante o Segundo Período Intermediário.
Saiba tudo sobre [o reino de Kush – influência na antiguidade e as suas conquistas marítimas do reino de Axum, que herdou parte dessa grandeza núbia.
A 25.ª Dinastia: quando os “negros verdadeiros” governaram o Egito
Em 747 a.C., o rei núbio Piye (Piankhi) desceu o Nilo, conquistou todo o Egito e fundou a 25.ª Dinastia – os chamados “faraós negros”. Taharqa, o mais famoso deles, é mencionado na Bíblia (2 Reis 19:9) e foi o único faraó a enfrentar com sucesso o Império Assírio.
Estudiosos admitem hoje: os reis-cushitas salvaram a cultura egípcia clássica da destruição total.
As estátuas de Taharqa, Shabaka e Tanutamani mostram traços negro-africanos inegáveis – lábios grossos, nariz largo, pele escura. Eram Nehesyu puros. E foram faraós legítimos, adorados como deuses no próprio templo de Karnak.
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A mesma cultura, duas tonalidades de pele
- Arquitectura → pirâmides mais inclinadas e pequenas em Meroé, mas com a ideia e a técnica vieram do Egito e voltaram melhoradas para Kush.
- Religião → Amon, o deus principal do Egito, nasceu em Napata (Núbia). Os núbios consideravam-se os verdadeiros guardiões do culto.
- Escrita → adaptaram os hieróglifos para a língua meroítica.
- Coroa → a coroa dupla (pschent) usada pelos faraós da 25.ª dinastia era… núbia.
A única diferença que os próprios egípcios destacavam era a cor da pele. Heródoto (século V a.C.) escreveu:
“Os egípcios são negros de pele e de cabelo crespo… os núbios são ainda mais negros.”
Por que nos roubaram esta história?
A partir do século XIX, arqueólogos europeus precisavam de um Egito “branco” ou pelo menos “castanho-claro” para justificar a superioridade racial da Europa. Classificaram os núbios como “raça diferente” apesar de todas as provas em contrário. Chegaram a serrar narizes de estátuas e a falsificar cronologias.
Hoje, graças ao ADN antigo (estudos de 2017, 2017, e Schuenemann et al.), sabemos que os faraós da 25.ª dinastia tinham mais ancestralidade subsariana que os próprios egípcios do norte. A ciência confirmou o que as pinturas sempre mostraram.
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Cronologia resumida da grandeza núbia
| Período | Evento principal | Local principal |
|---|---|---|
| 3500–2500 a.C. | Cultura A-Grupo e C-Grupo – primeiros reinos | Baixa Núbia |
| 2500–1500 a.C. | Reino clássico de Kerma – maior que o Egito | Kerma (Sudão) |
| 1500–1000 a.C. | Conquista egípcia (Novo Império) e resistência | Napata |
| 780–656 a.C. | 25.ª Dinastia – faraós negros governam o Egito | Napata e Mênfis |
| 656 a.C.–350 d.C. | Reino de Meroé – pirâmides, rainhas-guerreiras | Meroé (Sudão) |
| 350 d.C. | Queda de Meroé perante o Reino de Axum |
As rainhas-guerreiras (Kandake) de Meroé
Amanirenas, Amanishakheto e Amanitore – mulheres que comandavam exércitos e assinavam tratados com Roma. Augusto teve de negociar com elas depois de Amanirenas ter destruído a guarnição romana em Assuão e levado a cabeça de uma estátua do imperador para Meroé.
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Legado vivo
A influência núbia sobrevive na música, na dança, na joalharia e até na culinária do Alto Egito e do Sudão atual. Os coptas sudaneses ainda cantam hinos em língua núbia antiga nas suas igrejas.
E as pirâmides? Há mais pirâmides no Sudão do que no Egito – e estão quase todas por escavar.
Perguntas frequentes sobre os Núbios e o Egito Antigo
P: Os núbios eram escravos dos egípcios?
R: Não. Foram aliados, inimigos, conquistadores e, durante quase um século, faraós. A relação foi de igual para igual.
P: Então o Egito antigo era “negro”?
R: Os egípcios antigos definiam-se como povo negro (Kemet = terra negra). Os núbios eram simplesmente os seus irmãos ainda mais ao sul, com pele ainda mais escura. A diferença era de grau, não de raça.
P: Porque vemos egípcios claros em filmes?
R: Racismo histórico do século XIX–XX. As pinturas originais mostram egípcios castanho-escuros/vermelho-acastanhados e núbios quase ébano. A maquilhagem de Hollywood branqueou-os.
P: Os faraós da 25.ª dinastia eram “invasores”?
R: Não mais do que os hicsos ou os líbios. Foram reconhecidos como legítimos pelos templos egípcios e salvaram a cultura faraónica da destruição assíria.
P: Ainda existem núbios hoje?
R: Sim! Mais de 6 milhões no Sudão e sul do Egito falam línguas núbias e mantêm tradições milenares.
É hora de devolver a história aos seus verdadeiros donos
Os Nehesyu não eram “primos pobres” do Egito. Foram co-criadores da mais longa e brilhante civilização da humanidade. A única coisa que os separava dos kemitas era… um tom mais escuro de glória.
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