Aspelta, rei de Kush (atual Sudão) no século VI a.C., é conhecido pela sua menção na campanha militar de Psamético II contra Napata e pelas suas impressionantes estelas que adotam títulos egípcios de alto funcionário. Descubra a fascinante relação entre o Reino de Kush e o Egito Antigo.

Um Rei Esquecido que Ainda Fala Alto

No ano 593 a.C., o faraó Psamético II do Egito lançou uma expedição militar ao coração da Núbia. A campanha foi registrada numa estela encontrada em Karnak (e noutras localidades) onde se lê, com orgulho faraónico:

«Sua Majestade foi ao país de Kush… destruiu as suas cidades, queimou os seus templos e levou os seus deuses.»

Entre os nomes dos reis kushitas derrotados surge, de forma destacada, Aspelta – o soberano que, poucos anos antes, governava desde Meroé e Napata o poderoso Reino de Kush, herdeiro direto da XXV Dinastia egípcia (os chamados “faraós negros”).

Mas o que torna Aspelta verdadeiramente único não é apenas ter sido alvo de uma invasão egípcia. São as suas próprias estelas – a Estela da Eleição, a Estela da Entronização e a Estela de Adoção – onde ele ostenta títulos tipicamente egípcios reservados a altíssimos funcionários do faraó, como “Filho do Rei, Supervisor das Portas do Sul” ou “Grande dos Diretores de Artesãos”. Como pode um rei estrangeiro, soberano independente, usar títulos que, no Egito, só o próprio faraó ou os seus mais próximos concediam?

Este artigo mergulha profundamente nessa aparente contradição e mostra como Aspelta representa o auge do sincretismo cultural entre Kush e Egito – um período em que a fronteira entre “egípcio” e “núbio” era muito mais fluida do que a historiografia tradicional admite.

Quem Foi Aspelta? Cronologia e Contexto Histórico

Aspelta reinou aproximadamente entre 593–568 a.C. (as datas variam ligeiramente conforme os egiptólogos). Era filho da rainha Amanimalel e neto do célebre Tantamani, o último faraó da XXV Dinastia que ainda tentou recuperar o trono do Baixo Egito em 656 a.C.

Após a expulsão dos kushitas do Egito pelos assírios e, depois, pela XXVI Dinastia saíta, a corte real transferiu-se definitivamente para sul, primeiro Napata e, progressivamente, para Meroé. Aspelta pertence, portanto, à fase napato-meroítica do Reino de Kush – um Estado que mantinha a religião, a escrita, a arquitetura e a titulação faraónica, mas já com forte identidade própria.

Curiosidade: Aspelta foi escolhido rei por um colégio de sacerdotes de Ámon segundo o oráculo do de Napata – exatamente o mesmo sistema usado pelos faraós do Novo Império. A sua Estela da Eleição narra todo o processo.

Se quiseres saber mais sobre como Kush herdou e transformou a cultura faraónica, recomendo o artigo O Reino de Kush e a sua relação com o Egito e A arte e arquitetura da antiga Núbia.

A Campanha de Psamético II e a “Vitória” Egípcia

Em 593 a.C., Psamético II (589–570 a.C.) decidiu realizar uma grande demonstração de força contra Kush. Fontes gregas (Heródoto) e as próprias estelas egípcias contam que o exército subiu o Nilo até à terceira catarata, talvez até à quarta.

A estela de Shellal (Aswan) e a de Karnak mencionam explicitamente:

«O rei Aspelta fugiu perante Sua Majestade…»

No entanto, arqueologicamente não há sinais de destruição em Napata ou Meroé nessa data. A campanha parece ter sido mais uma razia de prestígio do que uma conquista duradoura. Ainda assim, Psamético mandou raspar os nomes dos reis kushitas nos templos que ainda controlava no Baixo Nilo e proclamou vitória.

Aspelta, longe de ser destruído, continuou a reinar tranquilamente durante mais duas décadas.

As Estelas de Aspelta – Títulos Egípcios num Rei Kushita

Aqui chega o ponto mais fascinante.

Três grandes estelas encontradas em Gebel Barkal e hoje no Museu do Cairo e no Museu Nacional do Sudão mostram Aspelta com a coroa dupla, o ureu, o cetro heka e o flagelo – símbolos exclusivamente faraónicos – e, sobretudo, com uma lista de títulos que deixam qualquer egiptólogo de boca aberta:

  • “Filho do Rei de Kush, nascido da Senhora das Duas Terras”
  • “Supervisor das Portas Estrangeiras do Sul” (título normalmente do vice-rei da Núbia no Egito!)
  • “Grande dos Diretores de Artesãos” (o mesmo título de Imhotep!)
  • “Amado de Ámon-Rá, senhor dos tronos das Duas Terras”

Estes títulos não são mera imitação superficial. São idênticos aos usados pelos vice-reis da Núbia durante o Novo Império egípcio (quando Kush era província). Aspelta estava a declarar-se, simbolicamente, herdeiro legítimo do sistema administrativo e religioso egípcio, mesmo depois de o Egito ter expulsado a sua dinastia.

Para mais sobre a continuidade administrativa, vejam o artigo Sociedade e economia do Reino de Kush.

Porquê Títulos Egípcios de Alto Funcionário?

Existem três grandes teorias principais (todas plausíveis e provavelmente complementares):

  1. Legitimação dinástica – Aspelta descendia diretamente dos faraós da XXV Dinastia. Usar títulos do antigo vice-reinado era uma forma de dizer: “Nós não somos estrangeiros; somos a continuação do Egito legítimo”.
  2. Continuidade administrativa – Muitos funcionários egípcios ficaram em Kush após 656 a.C. e continuaram a usar os mesmos cargos. Aspelta simplesmente manteve a máquina burocrática herdada.
  3. Propaganda política – Num período de tensão com o Egito saíta, adotar títulos que o próprio Psamético II usava no Baixo Nilo era uma provocação subtil: “O verdadeiro faraó está aqui no Sul”.

A Influência Cultural Bidirecional: Kush não só Copiou o Egito

Durante séculos pensou-se que Kush era uma mera “cópia” do Egito. Hoje sabemos que o fluxo cultural foi nos dois sentidos:

  • As pirâmides meroíticas são mais numerosas e mais íngremes que as de Gizé.
  • A rainha Amanishakheto usava uma coroa única nunca vista no Egito.
  • A escrita meroítica (ainda não totalmente decifrada) nasceu a partir dos hieróglifos, mas tornou-se alfabética.

Aspelta representa o ponto alto desse sincretismo. Ele era, ao mesmo tempo, faraó legítimo aos olhos dos kushitas e alto funcionário aos olhos da tradição administrativa egípcia.

Se quiseres aprofundar este intercâmbio cultural, recomendo A influência cultural da África antiga e Civilizações africanas que revolucionaram.

O Legado de Aspelta e o Declínio de Napata

Após Aspelta, o centro político de Kush muda definitivamente para Meroé. A cidade de Napata perde importância militar, mas mantém o prestígio religioso (o oráculo de Ámon continuou a escolher reis durante séculos).

Aspelta foi sepultado na pirâmide Nu. 8 de Nuri, uma das maiores do cemitério real kushita, com mais de 60 metros de lado na base. A sua tumba foi escavada por George Reisner em 1916 e continha objetos de ouro, alabastro e faiança de qualidade comparável à do Vale dos Reis.

Perguntas Frequentes sobre Aspelta e o Reino de Kush

1. Aspelta alguma vez governou o Egito?
Não. Pertence à fase pós-XXV Dinastia, quando Kush já era independente.

2. Porque é que Psamético II o menciona pelo nome se a campanha foi só uma razia?
Porque Aspelta era o rei no momento da expedição e o seu nome tinha peso simbólico – descendia dos “faraós negros” que tinham dominado o Egito um século antes.

3. As estelas de Aspelta estão em museus?
Sim. A Estela da Entroização está no Museu do Cairo; a Estela da Adoção está no Museu Nacional do Sudão, em Cartum.

4. Os reis kushitas continuaram a usar títulos egípcios depois de Aspelta?
Sim, até ao século III d.C. O último rei conhecido a usar a titulação completa faraónica completa foi Tanyidamani (c. 100 a.C.).

5. Qual é a relação entre Aspelta e a famosa rainha Amanirenas que enfrentou Roma?
Amanirenas era bisneta ou trineta de Aspelta – a mesma linhagem real que, duas gerações depois, quase derrotou Augusto.

Aspelta não foi apenas um rei que sobreviveu a uma invasão egípcia. Foi o símbolo máximo de uma civilização que, mesmo expulsa do Vale do Nilo, continuou a considerar-se a verdadeira guardiã da tradição faraónica. As suas estelas são a prova viva de que a história da África antiga não pode ser contada apenas a partir do Cairo ou de Gizé – tem de incluir Napata, Meroé e reis como Aspelta.

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