“Uma rainha cega de um olho só, com coragem de dois.”
– Estrabão, ao descrever Amanirenas, a Candace que enfrentou Augusto

No coração da Núbia antiga, onde o Nilo faz a sua última grande curva antes de entrar no Egito, ergueu-se um dos reinos mais poderosos e fascinantes da história africana: Méroe, capital do Reino de Kush. Entre os séculos III a.C. e IV d.C., este reino produziu uma sucessão de rainhas-regentes que adotaram o título real de qore kandake (grafado pelos gregos como “Candace”). O termo tornou-se tão célebre que os romanos e, mais tarde, até a Bíblia (Atos 8:27) o usavam como sinónimo de “rainha da Núbia”.

Quatro dessas soberanas destacam-se pela sua força militar, diplomacia implacável e riqueza monumental: Amanirenas (c. 40–10 a.C.), Amanishakheto (c. 10 a.C.–1 d.C.), Nawidemak (início do século I d.C.) e Maleqereabar (meados do século I d.C.). Elas não foram apenas “rainhas consortes”: governaram com poder absoluto, comandaram exércitos e deixaram pirâmides, templos e tesouros que ainda hoje nos deixam boquiabertos.

O Contexto: Kush depois da glória dos Faraós Negros

Quando o Egito caiu sob domínio ptolomaico e depois romano, Kush não desapareceu. Pelo contrário: transferiu a capital de Napata para Méroe, desenvolveu a sua própria escrita (meroítica, ainda parcialmente indecifrada), dominou a metalurgia do ferro e controlou as rotas do ouro, marfim e escravos. Foi neste cenário que surgiram as Candaces.

Para entender como Méroe se tornou tão poderosa, vale a pena ler sobre o Reino de Kush e sua relação com o Egito e sobre a arte e arquitetura da antiga Núbia.

Amanirenas – A Rainha que Humilhou Roma

Em 25 a.C., o prefeito romano do Egito, Caio Petrónio, invadiu Kush para cobrar tributos e acabar com ataques fronteiriços. Não contava era com Amanirenas.

A rainha, já cega de um olho (provavelmente em combate anterior), liderou pessoalmente o contra-ataque. Os exércitos kushitas arrasaram Assuão, File e Elefantina, e – ato de pura provocação – arrancaram a cabeça de uma estátua de bronze de Augusto e enterraram-na debaixo da entrada do seu palácio em Méroe (a cabeça foi encontrada em 1910 e está hoje no British Museum).

Petrónio retaliou, saqueou Napata e vendeu milhares de prisioneiros. Mas Amanirenas não cedeu. Marchou com dezenas de milhares de soldados até à ilha de Premis, onde negociou diretamente com os emissários de Augusto. Resultado: Roma retirou-se para sul de Maharraqa, isentou Kush de tributos e assinou um tratado de paz que durou séculos.

Quer saber mais sobre esta guerra esquecida? Veja o artigo completo Amanirenas: a rainha cega que derrotou Roma (em breve).

Amanishakheto – A Candace do Tesouro Mais Rico da História Nubiana

Filha (ou sobrinha) de Amanirenas, Amanishakheto é provavelmente a rainha representada nos famosos anéis e braceletes de ouro maciço encontrados em 1834 na sua pirâmide (Beg. N6). O seu tesouro – hoje dividido entre Munique e Berlim – contém joias de uma qualidade técnica que ainda deixa os ourives de boca aberta.

Era tão temida que os seus relevos mostram-na gigantesca, esmagando inimigos com a lança e abençoada pelos deuses Apedemak (deus-leão da guerra) e Amun. Foi provavelmente ela a “Candace” mencionada por Estrabão como “mulher viril que era cega de um olho” – confusão comum entre as duas rainhas.

Conheça mais sobre as riquezas do Reino de Kush – ouro, marfim e poder.

Nawidemak – A Rainha da Beleza e da Estátua de Bronze

Nawidemak é conhecida sobretudo pela estátua de bronze descoberta em 1910 no templo de Amun em Méroe – uma das raras esculturas em metal do período. Representada com corpo voluptuoso, coroa com ureus duplo e vestido plissado, simboliza o apogeu da arte meroítica. As suas pirâmides (Beg. N29 e N6) indicam que reinou com grande riqueza e prestígio.

Maleqereabar – O Guerreiro de Saia Curta

Representado em relevos com músculos salientes, saia curta de soldado e lança na mão, Maleqereabar quebra o padrão feminino tradicional. Alguns investigadores pensam que pode ter sido homem, mas a maioria aceita que era uma mulher que adotou iconografia masculina para reforçar a sua autoridade militar – prática comum entre as Candaces.

O Título “Candace – Poder Matrilinear e Sucessão

Diferente do Egito, em Kush o trono passava frequentemente pela linha feminina. O filho da irmã do rei era o herdeiro preferido, o que dava às rainhas-mães (kandakes) enorme influência. Quando o rei morria ou estava em campanha, a kandake assumia o poder total. Daí a frequência de rainhas-regentes tão poderosas.

Para aprofundar o tema do poder feminino na África antiga, recomendo o papel da mulher na sociedade antiga e mulheres poderosas da antiguidade.

Legado das Candaces

  • Construíram mais pirâmides que todo o Egito no mesmo período (mais de 200 pirâmides em Begrawiya, Nuri e Jebel Barkal).
  • Desenvolveram escrita própria (meroítico).
  • Exportaram ouro, marfim, ébano, plumas de avestruz e animais exóticos até à Índia e Roma.
  • Resistiram com sucesso ao maior império do mundo antigo sem nunca serem conquistados.

Séculos depois, o nome “Candace” tornou-se título honorífico na Etiópia cristã até ao século XX.

Perguntas Frequentes sobre as Candaces de Méroe

1. “Candace” era nome próprio?
Não. Era o título real kandake ou ktke, que significava “rainha-mãe” ou “rainha-regente”. Os gregos e romanos transformaram-no em nome próprio.

2. A rainha da Bíblia (Atos 8:27) era uma destas?
Provavelmente não. O episódio acontece cerca de 40–50 d.C., depois do reinado de Amanishakheto. A Candace da Bíblia seria uma sucessora (talvez Amanitore).

3. Porque é que quase ninguém conhece estas rainhas?
Porque a história clássica foi escrita pelos vencedores romanos e gregos, e depois a narrativa eurocêntrica do século XIX-XX ignorou ou minimizou os reinos africanos independentes.

4. Ainda existem descendentes das Candaces?
A dinastia meroítica extinguiu-se no século IV d.C. com a invasão axumita, mas muitas famílias nobres sudanesas e eritreias reivindicam descendência simbólica das grandes kandakes.

5. Posso visitar as pirâmides de Méroe?
Sim! Estão em Begrawiya, a 220 km de Cartum (Sudão). Património Mundial da UNESCO e muito menos concorridas que as do Egito.

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Fontes principais:

  • Estrabão, Geografia XVII
  • Plínio, o Velho, História Natural VI
  • Inscrições meroíticas e relevos de Naqa, Wad ban Naqa e Begrawiya
  • Trabalhos de László Török, Derek Welsby e Claude Rilly

Até ao próximo mergulho no passado africano! 🦁