“Eu sou a que foi o princípio, a que está no princípio dos tempos. Eu sou Neith, a terrível em batalha, a senhora do arco, dona das flechas que matam sem piedade.
– Inscrição arcaica de Sais (Baixo Egito), c. 3000 a.C.

Neith (em egípcio antigo: Nt – pronunciado aproximadamente “Net” ou “Neit”) é uma das divindades mais antigas de toda a história africana. Surgida ainda no período pré-dinástico, muito antes da unificação do Egito em 3100 a.C., ela era a grande protetora da cidade de Sais (em egípcio Zau), capital do Baixo Egito antes mesmo de Mênfis ou Heliópolis assumirem protagonismo. Hoje chamada de Sa el-Hagar, no centro do Delta, esta cidade foi, durante séculos, o coração político e espiritual do norte.

Este artigo mergulha fundo nas origens pré-históricas e proto-históricas de Neith, na sua relação com as primeiras civilizações do Delta e no seu legado que atravessou milénios, influenciando até mesmo a mitologia grega (onde foi identificada com Atena). Vamos viajar até ao berço da humanidade africana e perceber como uma deusa guerreira e criadora se tornou símbolo da soberania do norte.

As Origens Pré-Dinásticas de Neith: Quando o Delta já era sagrado

O Delta do Nilo foi habitado desde o Paleolítico. Descobertas recentes mostram que humanos sobreviveram na pré-histórica África muito antes do que se pensava, e o mesmo acontecendo no fértil Delta. Ferramentas líticas e restos de assentamentos datados de 6000–4000 a.C. indicam que a região de Sais já era densamente povoada no período Neolítico.

Foi exatamente neste contexto que surge Neith. O seu símbolo – dois arcos cruzados sobre um escudo – aparece já em cerâmicas do período de Naqada I (c. 4000–3500 a.C.) e em paletas pré-dinásticas. Ela não era apenas uma deusa da guerra: era a tecelã do destino, a que “tecia” a vida e a morte”, mãe primordial que, segundo textos muito posteriores das Pirâmides, “deu à luz Rá antes que o céu existisse”.

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Sais: a capital “esquecida” do Baixo Egito

Antes da unificação, o Egito estava dividido em dois grandes reinos: o Alto Egito (sul) e o Baixo Egito (Delta). A coroa vermelha (deshret) pertencia ao norte e tinha como capital exatamente Zau (Sais. Neith era a sua padroeira absoluta.

Os reis pré-dinásticos do Delta usavam o título “Aquele que pertence às abelhas e à Neith”. Quando Narmer (ou Menés) unificou os Dois Países por volta de 3100 a.C., trouxe a capital para Mênfis, mas Neith nunca perdeu importância. Pelo contrário: durante a XXVI Dinastia (664–525 a.C.), conhecida como “Renascimento Saíta”, Sais voltou a ser capital do Egito inteiro e Neith viveu o seu apogeu.

Neith era tão antiga que os próprios egípcios a consideravam “mais velha que os deuses”. No Templo de Esna lê-se:

“Eu sou Neith, a anciã, que existia quando nada ainda existia. Eu sou a mãe de Rá e ao mesmo tempo sua filha. Eu sou a que está no Nun antes do céu e da terra terem sido separados.”

Os atributos de Neith: guerra, caça, tecelagem e criação

Neith é fascinante porque reúne paradoxos:

  • Deusa guerreira → senhora do arco e das flechas (as flechas egípcias chamavam-se “filhas de Neith”)
  • Deusa tecelã → inventora do tear, responsável por “tecer” as bandagens das múmias (por isso associada ao luto e à mumificação)
  • Deusa criadora → em alguns mitos pariu o crocodilo Sobek e o terrível serpente Apófis (o caos)
  • Deusa das águas primordiais → ligada ao Nun, o oceano cósmico

Esta multiplicidade reflete a complexidade das sociedades pré-dinásticas do Delta, onde a caça, a tecelagem e a guerra eram atividades centrais.

Neith e as rainhas-faraós: um símbolo de poder feminino

Durante toda a história egípcia, as mulheres que exerceram poder absoluto invocaram Neith. Hatshepsut, a grande rainha-faraó da XVIII Dinastia, mandou erguer obeliscos em Karnak com a frase:

“A filha de Neith, a poderosa, a que abre os caminhos…”

Também as últimas rainhas nativas do Egito – Nitócris e Sobekneferu – estavam ligadas ao culto de Neith. Na época saíta, a princesa Ankhnesneferibre foi feita “Esposa do deus” de Neith, cargo tão importante como o de Sumo Sacerdote de Ámon em Tebas.

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Neith na mitologia grega: a surpreendente ligação com Atena

Heródoto (século V a.C.), ao visitar Sais, ficou espantado com as semelhanças entre Neith e Atena. Os gregos rapidamente identificaram as duas deusas. Platão, no Timeu, chega a dizer que a deusa egípcia Neith era chamada Athana na língua grega – daí o nome Atenas.

Os festivais de Neith em Sais, com procissões noturnas de barcos iluminados (as famosas “Festas das Lâmpadas”), inspiraram diretamente os mistérios de Atena em Atenas.

O templo de Neith em Sais: o que resta hoje?

Infelizmente, pouco sobreviveu. O grande templo foi destruído ao longo dos séculos, e os seus blocos foram reutilizados na construção de Cairo medieval. No entanto, escavações recentes revelaram:

  • Colossos de granito de Ramses II (que se apropriou do templo)
  • Estelas da XXVI Dinastia
  • Um “lago sagrado” onde se realizavam as cerimónias noturnas

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Neith e a mumificação: a deusa dos mortos e dos vivos

Neith era uma das quatro deusas protetoras dos vasos canopos (junto com Ísis, Néftis e Selkis). O seu vaso protegia o fígado. Por isso, nas fórmulas funerárias aparece sempre:

“As filhas de Neith protegem-te, as tuas bandagens são tecidas por Neith.”

Este aspeto funerário liga-a diretamente às práticas de mumificação desde o período pré-dinástico – prova da sua antiguidade extrema.

Perguntas Frequentes

1. Neith é mais antiga que Osíris ou Ísis?
Sim. Textos das Pirâmides (c. 2400 a.C.) já a apresentam como “mãe de Sobek” e “mais antiga que os deuses”. É uma das poucas divindades que sobreviveu desde o pré-dinástico até à época greco-romana.

2. Porque é que Neith usava a coroa vermelha do Baixo Egito?
Porque era a padroeira da capital do norte (Sais). Quando o faraó usava a coroa dupla (pschent), a parte vermelha era “a coroa de Neith”.

3. Neith tinha forma animal?
Sim. Aparece como cobra, vaca, abelha, peixe ou escaravelho, mas o seu símbolo mais frequente são os dois arcos cruzados sobre o escudo.

4. Ainda há culto a Neith hoje?
Não de forma oficial, mas algumas práticas de tecelagem ritual e proteção feminina no Delta ainda fazem referência simbólica a “Nit”, especialmente entre as mulheres mais velhas da região.

5. Porque é que quase ninguém fala de Neith hoje?
Porque o culto de Ísis e Osíris, centrado no sul (Tebas), acabou por ofuscar o culto setentrional após a unificação. Mas na época saíta (séc. VII–VI a.C.) ela voltou a ser a deusa nacional.

Neith, a grande mãe do Delta

Neith é a prova viva de que o Delta do Nilo não era uma “periferia” do Egito antigo, mas sim o seu coração político e religioso mais antigo. Enquanto Mênfis e Tebas dominaram a narrativa histórica, foi em Sais, sob a proteção da terrível e maternal de Neith, que nasceu a primeira ideia de Estado unificado egípcio.

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Porque a verdadeira história da África começa muito antes dos faraós que todos conhecemos – e Neith estava lá, desde o princípio.

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