“Eu sou tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será; nenhum mortal jamais levantou o meu véu.”
– Inscrição no templo de Isis em Sais
Em toda a história da humanidade, poucas divindades conseguiram o que Isis conseguiu: ser ao mesmo tempo mãe carinhosa, viúva inconsolável, maga poderosa, rainha do céu e salvadora universal. Do Vale do Nilo até aos confins do Império Romano, o seu culto atravessou milénios e fronteiras, adaptando-se sem nunca perder a essência africana que nasceu no Antigo Egito – fatos e curiosidades que tanto fascinam o mundo até hoje.
Origens: A Filha Primordial do Céu e da Terra
Isis (em egípcio antigo Aset ou Iset) aparece já nos Textos das Pirâmides, os mais antigos escritos religiosos conhecidos da humanidade, datados de cerca de 2400 a.C. Filha de Geb (a Terra) e Nut (o Céu), irmã e esposa de Osíris, mãe de Hórus, ela forma a grande enéade heliopolitana.
A sua história mais célebre é o drama da morte e ressurreição de Osíris. Depois de ser assassinado e esquartejado por Seth, Isis percorre o Egipto inteiro recolhendo os pedaços do marido. Com a ajuda da irmã Néftis e do deus Anúbis, recompõe o corpo e, usando os seus poderes mágicos, concebe Hórus. Este mito não é apenas uma lenda: é a base da crença egípcia na vida após a morte e na vitória do bem sobre o caos.
“Eu sou Isis, a grande deusa, senhora da magia, que conhece as palavras de poder.”
Isis – A Mãe, a Maga, a Curandeira
Na religião quotidiana dos egípcios, Isis era a protetora das mulheres grávidas, das crianças e dos doentes. Os seus sacerdotes eram conhecidos como exímios curandeiros. Amuletos com o nó de Isis (tyet) eram usados como proteção contra o mal. Como conta o artigo sobre práticas religiosas e crenças, ela era invocada em feitiços de cura e proteção que atravessaram séculos.
Ela também era a deusa da navegação. Os marinheiros levavam imagens suas nos barcos, pois acreditavam que ela controlava os ventos e acalmava as águas – um papel que mais tarde a tornaria extremamente popular no mundo mediterrânico.
Osíris, Isis e o Ciclo da Vida no Vale do Nilo
O casal Osíris-Isis está intimamente ligado ao ciclo anual da cheia do Nilo. Osíris representa o solo fértil, Isis a umidade que faz germinar a vida. Todos os anos, durante as festas de Khoiak, os egípcios representavam o mistério da morte e renascimento do de Osíris, com Isis no centro do ritual. Este culto mistérico influenciou diretamente os posteriores mistérios de Elêusis na Grécia e, mais tarde, certos aspectos do cristianismo primitivo.
Se quiser aprofundar a relação da África e o mundo mediterrâneo, verá como estas ideias viajaram.
A Expansão Helénica: Quando Isis se Tornou Grega (sem deixar de ser Egípcia)
Com a fundação de Alexandria por Alexandre Magno em 331 a.C. e, sobretudo, com a dinastia ptolemaica (305–30 a.C.), Isis sofreu uma transformação visual extraordinária.
Os artistas gregos que trabalhavam no Egito mantiveram os atributos tradicionais – o trono na cabeça (o hieróglifo do seu nome), o sistro, o vaso de leite – mas esculpiram o corpo com a sensualidade e o contrapposto da estatuária helénica. Surgiu então a famosa “Isis helenizada”: vestido comprido de linho colado ao corpo, manto com franjas, cabelo ondulado à moda grega, postura elegante e serena.
No Serapeu de Alexandria, o maior templo dedicado a Sérapis (deus sincrético criado pelos Ptolomeus unindo Osíris e Apis), Isis era representada como a esposa perfeita, quase uma versão egípcia de Deméter ou Afrodite ao mesmo tempo.
Isis em Alexandria: O Templo de Philae e o Último Reduto
Mesmo depois da conquista romana, o culto de Isis continuou a florescer. O imperador Augusto proibiu templos de deuses egípcios dentro de Roma, mas permitiu fora do pomerium – e o culto explodiu. Em Pompeia, o templo de Isis é um dos melhor conservados graças à erupção do Vesúvio em 79 d.C.
Mas o lugar onde Isis mais resistiu ao avanço do cristianismo foi na ilha de Philae, no sul do Egito. Lá, o último templo ativo do antigo Egito só foi encerrado em 535 d.C. por ordem de Justiniano. Até essa data, sacerdotes continuavam a celebrar os antigos ritos em língua demótica e a escrever hinos em hieróglifos.
Ísis Universal: De Deusa Egípcia a Salvadora do Mundo Romano
No século II d.C., Apuleio, no seu romance As Metamorfoses (O Asno de Ouro), descreve uma impressionante teofania de Isis:
“Eis-me aqui, Lúcio, atendendo às tuas preces: eu, a mãe da natureza, senhora de todos os elementos, origem e princípio dos séculos…”
A partir daí, Isis passou a ser chamada Isis Panthea (“Isis de mil nomes”) e assimilada a quase todas as grandes deusas do mundo conhecido: Démeter, Afrodite, Cibele, Astarte, até à Virgem Maria mais tarde.
Representação Artística: Do Estilo Egípcio Canónico à Beleza Helenística
- Período faraónico: corpo rígido, peruca tripartida, trono na cabeça, sistro e ank na mão.
- Período ptolemaico: vestido grego colado ao corpo, nó de Isis no peito, cabelo ondulado, expressão serena e sensual.
- Período romano: manto com franjas (o famoso “manto de Isis”), cornucópia, sistro, por vezes com Hórus-criança ao colo – imagem que influenciou diretamente a iconografia cristã da Virgem com o Menino.
O Legado Vivo de Isis
Mesmo depois do fecho dos templos, Isis não desapareceu. A sua imagem de mãe com o filho no colo passou para a Virgem Maria. Muitos dos hinos a Isis foram adaptados para Maria nas igrejas coptas do Egito. Hoje, na igreja de Santa Maria de Zeitoun no Cairo, os cristãos ainda chamam à Virgem “Nossa Senhora de Isis”.
E, claro, a estrela Sirius (Sopdet em egípcio), que anunciava a cheia do Nilo, continua a ser chamada popularmente no Egito de “a estrela de Isis”.
Perguntas Frequentes sobre Isis
1. Isis era apenas uma deusa da fertilidade?
Não.** Era deusa da magia, da cura, da maternidade, da navegação, da sabedoria e, sobretudo, da ressurreição e da vida eterna.
2. Porque é que a representavam com um trono na cabeça?
O hieróglifo do seu nome era exatamente um trono (trono). Simbolizava que ela era a “sede” do poder faraónico – o trono onde o rei se sentava era, simbolicamente, Isis.
3. Isis e Hator são a mesma deusa?
Não, mas eram frequentemente sincretizadas. Em alguns períodos, Isis absorvia atributos de Hator (o disco solar e cornos de vaca).
4. Porque é que o culto de Isis sobreviveu tanto tempo?
Porque oferecia salvação pessoal, iniciação mistérica e esperança de vida após a morte numa época de grande insegurança – algo que nem o culto imperial romano nem as religiões tradicionais gregas ofereciam.
5. Onde posso ver as mais belas estátuas de Isis helenística?
No Museu do Louvre (Paris), no Museu Gregoriano Egípcio (Vaticano), no Museu Arqueológico de Nápoles e, claro, no Museu Egípcio do Cairo.
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Isis continua viva. Basta olhar para o céu numa noite de verão e encontrar a estrela mais brilhante – ela ainda vela por nós.








