Descubra a história fascinante de Geb, o deus egípcio da Terra, pai dos faraós, esposo de Nut (o céu) e pilar da cosmogonia nilótica – uma divindade que nos liga diretamente ao berço da humanidade e à mais antiga espiritualidade africana.

A história da humanidade começou em África. Foi aqui, há milhões de anos, que os primeiros passos da humanidade foram dados sobre a terra que mais tarde seria personificada como Geb – o grande deus da fertilidade, dos terremotos e do solo sagrado do Nilo.

Quem foi Geb? O deus-terra que sustenta o mundo

Na mitologia egípcia, Geb (ou Qeb, Keb, Seb) é a própria Terra personificada. Filho de Shu (ar e Tefnut (umidade), ele é marido-irmão de Nut, a deusa do céu. Juntos formam um dos pares primordiais da Enéada de Heliópolis.

“Geb ri e nasce o tremor; Geb chora e nasce o Nilo.”
– Texto das Pirâmides, dinastia V

Os egípcios viam-no deitado de costas, coberto de vegetação verde, com o corpo formando as colinas e vales do Egipto. Sobre ele, arqueada, estava Nut, o céu estrelado, separada à força pelo pai Shu para que o mundo pudesse existir.

Iconografia de Geb

  • Corpo verde ou negro (terra fértil do limo do Nilo)
  • Ganso sobre a cabeça (o “Grande Cacarejador” que pôs o ovo cósmico)
  • Às vezes representado com o falo ereto apontando para Nut – símbolo da fertilidade eterna
  • Deitado sob os pés de Osíris ou sob o barco solar

Geb na cosmogonia egípcia

Segundo o mito heliopolitano:

  1. Atum (o Todo) cria Shu e Tefnut
  2. Shu e Tefnut geram Geb (Terra) e Nut (Céu)
  3. Geb e Nut unem-se apaixonadamente
  4. Rá, irritado, ordena a Shu que os separe
  5. Nasce assim o espaço habitável entre céu e terra
  6. Do ventre de Nut nascem Osíris, Ísis, Seth e Néftis

Geb torna-se, portanto, o primeiro rei divino da Terra antes de ceder o trono a Osíris e, depois, aos faraós humanos – que passam a ser chamados “Herdeiros de Geb”.

Geb e o solo sagrado do Egipto

Para os antigos egípcios, a terra não era apenas “recurso”. Era divindade viva.

  • Cada palmo de terra cultivável era “corpo de Geb”
  • O limo negro depositado pela cheia anual do Nilo era “sêmen de Geb”
  • Os terremotos eram Geb “ri” ou “se agita”
  • Os minerais e pedras preciosas eram “ossos de Geb”

Esta visão animista da terra está profundamente ligada à espiritualidade africana ancestral. Longe de ser exclusiva do Egipto, a adoração da Terra como entidade materna/paterna aparece em dezenas de culturas subsarianas até hoje.

A herança africana de Geb: da pré-história à eternidade

Os fósseis africanos que desafiaram a história mostram que a relação sagrada com a terra começou muito antes do Egipto dinástico. Em sítios como Olduvai ou a gruta de Blombos, encontramos já há 100 000 anos pigmentos de ocre vermelho – símbolo da terra e do sangue – usados em rituais.

Essa conexão espiritual com o solo perdura:

  • Entre os Dogon do Mali, a Terra é Nommo e Pemba
  • Para os Akan de Gana, é Asase Yaa
  • Os Yoruba chamam-na Ilê (a Casa)
  • Os Zulu venerenciam uMvelinqangi através da terra

Geb é, portanto, apenas a manifestação nilótica de um arquétipo pan-africano milenar.

Geb e os faraós: legitimidade divina pelo solo

Todo faraó era “Filho de Geb”. A coroação incluía o rito de “União com Geb”: o rei deitava-se simbolicamente sobre o chão para receber a força da terra.

“Tu és o herdeiro de Geb, o senhor das terras, que une as Duas Terras.”
– Fórmula recitada em todas as entronizações

A famosa cena do templo de Luxor mostra Amenhotep III sendo amamentado por uma vaca – mas também deitado sobre Geb, recebendo a terra como herança.

Geb e a agricultura: o deus que alimenta

Sem Geb não haveria cheia, não haveria trigo, não haveria vida. Nos hinos, ele é chamado:

  • “Pai dos de todos os cereais”
  • “Senhor do verde”
  • “Aquele que faz brotar as plantas”

Durante a festa de Opet, levavam a estátua de Geb coberta de grãos germinados – exatamente o mesmo ritual que ainda hoje os coptas fazem no “Jardim de Maria” no Natal.

Geb e os mortos: a terra que acolhe

Paradoxalmente, Geb também era o guardião dos mortos. Os túmulos eram “casas de Geb”. A mumificação visava impedir que o corpo voltasse demasiado rápido ao deus-terra.

Nos Textos dos Sarcófagos lê-se:

“Ó Geb, abre a tua boca para mim, para que eu possa respirar o ar que vem de ti.”

Geb nas artes e na arquitetura

Em Deir el-Bahari, Hatshepsut mandou esculpir Geb deitado sob os pés da barca sagrada. Em Dendera, ele aparece com o corpo coberto de plantas e serpentes – símbolo da renovação eterna.

Curiosidade: a famosa estátua de Geb no Museu do Cairo mostra-o com um ganso na cabeça e o corpo coberto de hieróglifos de “terra” – um dos exemplares mais belos da arte egípcia.

Geb nas crenças populares até hoje

No Egipto rural ainda se diz quando há um sismo: “Geb está a rir-se”. E quando a terra é muito fértil: “É terra abençoada por Geb”.

Perguntas frequentes sobre Geb

Quem eram os filhos de Geb e Nut?

Osíris, Ísis, Seth e Néftis – a segunda geração divina.

Geb era macho ou fêmea?

Macho. A Terra era masculina no Egipto (diferente da maior parte das culturas que a veem como mãe). A deusa-mãe era Nut (céu) ou Ísis.

Porque é que Geb tem um ganso na cabeça?

Porque, segundo o mito, ele pôs o ovo cósmico sob a forma de ganso – o “Grande Cacarejador”.

Geb está relacionado com outras divindades africanas da terra?

Sim. É cognato de:

  • Asase Yaa (Akan)
  • Ala (Igbo)
  • Ki (Suméria – curiosamente também terra masculina)
  • Tinem (San)

Onde posso ver representações de Geb?

  • Museu Egípcio do Cairo
  • Museu do Louvre (estela C100)
  • Templo de Kom Ombo
  • Teto astronómico de Dendera

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Geb lembra-nos que, antes de tudo, somos filhos da terra africana – a mesma terra que viu nascer a evolução da inteligência humana e que ainda hoje pulsa sob os nossos pés.

A história da África não começa com as pirâmides – começa com a adoração reverente desta terra sagrada que os antigos chamaram Geb.

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