Explorando a essência invisível que sustenta a vida, a separação do céu e da terra e o sopro divino que atravessa toda a história espiritual africana
O ar que respiramos não é apenas oxigénio: no Antigo Egito era um deus vivo. Chamava-se Shu (em egípcio antigo Šw), personificação do ar, da luz solar difusa e do espaço vazio entre o céu e a terra. Junto da sua gémea e esposa Tefnut (a humidade), formava o primeiro par divino nascido do criador primordial – Atum ou Rá-Atum – dando início à Grande Enéade de Heliópolis.
Este artigo mergulha fundo na figura fascinante de Shu, na sua mitologia, iconografia, culto e, sobretudo, na sua influência duradoura nas conceções espirituais africanas até aos dias de hoje. Vamos descobrir como um conceito tão abstrato se tornou uma das divindades mais poderosas e omnipresentes da mais antiga civilização africana.
As Origens Cósmicas de Shu
Segundo o mito heliopolitano, no início só existia o caos aquoso – Nun. Atum, ao emergir, masturbou-se (ou, numa variante, cuspiu) e desse ato nasceram Shu e Tefnut. Estes dois irmãos-gémeos representam os dois elementos indispensáveis à vida:
- Shu → ar seco, vento, luz difusa, vazio luminoso
- Tefnut → humidade, névoa, chuva, fogo corrosivo
Sem eles não haveria espaço para a vida existir. Shu separa Nut (o céu) de Geb (a terra), impedindo que o cosmos volte ao estado primordial de união caótica. É por isso que, em quase todas as representações, vemos Shu de braços erguido, braços levantados, sustentando o corpo arqueado da deusa Nut sobre o deus Geb deitado.
“Eu sou Shu, filho de Atum,
Eu separo Nut de Geb,
Eu levanto o céu para que a luz entre,
Eu sou o sopro da vida que enche os pulmões dos deuses e dos homens.”
– Texto das Pirâmides, § 80-81 (adaptação)
Esta separação primordial é um dos mitos fundadores da civilização egípcia e, por extensão, de grande parte das cosmogonias africanas antigas. Encontramos ecos deste mito em povos nilóticos, bantu e até em algumas tradições dogon do Mali atual.
Iconografia: O Deus da Pluma e do Disco Solar
Shu é imediatamente reconhecível:
- Homem com uma pluma de avestruz (símbolo de leveza e ar) na cabeça
- Frequentemente ajoelhado ou de pé com os braços erguidos
- Por vezes representado com a cabeça de leão (forma “Shu-leonino” ligada ao calor do ar)
- Cor da pele: geralmente vermelha (cor do deserto e do ar seco)
Nas vinhetas do Livro dos Mortos vemos Shu e Tefnut flanqueando o disco solar dentro da barca de Rá, protegendo o deus-sol durante a travessia noturna do Duat.
Se quiseres ver exemplos impressionantes desta iconografia, recomendo o artigo sobre a religião e mitologia dos egípcios e as crenças religiosas no Egito.
Shu nos Textos das Pirâmides e nos Textos dos Sarcófagos
Os Textos das Pirâmides (c. 2400–2300 a.C.) são as primeiras escrituras religiosas conhecidas da humanidade e já mencionam Shu mais de 200 vezes. O faraó morto identifica-se com ele:
“Eu sou Shu, eu abro a minha boca e o ar entra em mim.
Eu vivo do ar que é o meu ka.”
Nos Textos dos Sarcófagos do Império Médio, Shu ganha ainda mais relevância como mediador entre o mundo dos vivos e o além. É ele quem “dá o sopro” ao defunto para que este possa ressuscitar.
Shu e Tefnut: O Casal Primordial e o Ciclo da Vida
Apesar de serem irmãos, Shu e Tefnut casam-se e geram Geb (terra) e Nut (céu). Este incesto divino não chocava os antigos egípcios – era a forma de garantir a continuidade do cosmos. Quando Shu e Tefnut se perdem no Nun, Atum envia o Olho de Rá (por vezes Hator ou uma forma de Sekhmet) para os trazer de volta. Ao regressarem, Tefnut chora de alegria – e as suas lágrimas tornam-se nos primeiros seres humanos.
Este mito da “lágrima divina” que cria a humanidade é uma das mais belas heranças egípcias e aparece, com variações, em dezenas de povos da África subsariana.
O Culto a Shu: Templos e Sacerdotes do Ar
Embora não tivesse grandes templos próprios como Ísis ou Osíris, Shu era adorado em Heliópolis (atual subúrbio do Cairo) e em Leontópolis (“cidade dos leões”), onde assumia forma leonina juntamente com Tefnut.
Os sacerdotes de Shu chamavam-se wty.w n šw (“os que pertencem ao ar”) e usavam plumas brancas na cabeça. Nos rituais diários do templo, o faraó ou o sumo-sacerdote recitava:
“Ó Shu, dá-me o teu ar da vida!
Que o teu vento norte refresque a minha cara como refresca a cara de Rá!”
Shu na Vida Quotidiana e na Medicina Egípcia
O ar não era apenas espiritual – era saúde. Os médicos egípcios associavam doenças respiratórias ao “ar maligno” (b. Tratavam-se com incensos e ventilações forçadas, invocando Shu para “expulsar o ar podre”.
Ainda hoje, em algumas comunidades tradicionais do Vale do Nilo, quando alguém espirra diz-se “Shu!” ou “Que Shu te proteja!” – uma memória viva de há 5000 anos.
Influência de Shu nas Religiões Africanas Posteriores
- Núbia/Kush – Shu aparece como dedicação nos templos de Napata e Meroé, muitas vezes fundido com o deus-leão Apedemak.
- Povos akan (Gana/Costa do Marfim) – Nyame (deus do céu) envia o seu filho Bia para separar céu e terra – eco direto do mito de Shu.
- Dogon (Mali) – Amma cria o mundo e o ar é o primeiro elemento animado – paralelo impressionante.
- Yoruba (Nigéria/Benin) – O orixá Ọbatala separa o céu da terra com a ajuda de Oxalá-ar (ar).
- Zulu – uMvelinqangi envia o vento como mensageiro – conceito semelhante.
Para quem quiser aprofundar estas conexões, veja o artigo as crenças e práticas religiosas e religiões e crenças espirituais.
Shu e o Clima: Senhor do Vento Norte Refrescante
No deserto, o vento norte que vem do Mediterrâneo era (e é) uma bênção. Chamava-se “o sopro de Shu”. Durante os meses mais quentes, os egípcios abriam as janelas viradas a norte para “deixar Shu entrar”.
Nas casas ricas havia “captadores de vento” – torres altas com aberturas que canalizavam a brisa. Estas torres ainda existem em algumas aldeias núbias e no oásis de Siwa.
Shu na Literatura e Poesia Amorosa
Nos famosos poemas de amor do Império Novo encontramos versos como:
“O teu amor é como o vento norte de Shu,
entra pela minha janela e refresca o meu corpo ardente.”
Representações Artísticas Fora do Egito
Curiosamente, Shu aparece em moedas ptolemaicas (período grego) e até em relevos romanos no templo de Esna. A sua imagem atravessou o Mediterrâneo e influenciou a iconografia grega de Éter (Aither), o ar superior puro.
Perguntas Frequentes sobre Shu
Quem eram os pais de Shu?
Shu e Tefnut foram criados por Atum/Rá através de um ato de auto-procriação (masturbação ou cuspo, dependendo da versão).
Shu era mais importante que Rá?
Não. Shu era essencial, mas subordinado. Era o “espaço” que permite a Rá existir e brilhar”.
Porque é que Shu tem uma pluma na cabeça?
A pluma de avestruz simboliza leveza, vazio e verdade (a mesma pluma de Maat).
Existiam templos dedicados exclusivamente a Shu?
Não grandes, mas havia capelas em Heliópolis, Leontópolis e em muitos templos como parte da Enéade.
Shu ainda é adorado hoje?
Na religião kemética moderna (reconstrucionista egípcia) sim. E, como vimos, o seu nome sobrevive em expressões populares no Egito e Sudão.
Gostaste de conhecer a história de Shu? Então não percas estes artigos relacionados:
- A religião e mitologia dos egípcios
- Os mistérios do Vale do Nilo na antiguidade
- As mulheres poderosas da antiguidade
- A África que transformou o mundo
- O berço da humanidade e de civilizações
- Civilizações africanas revolucionaram
Queres continuar esta viagem pela história africana todos os dias?
- YouTube → https://www.youtube.com/@africanahistoria
- Canal WhatsApp → https://whatsapp.com/channel/0029VbB7jw6KrWQvqV8zYu0t
- Instagram → https://www.instagram.com/africanahistoria/
- Facebook → https://www.facebook.com/africanahistoria
Partilha este artigo com quem precisa de respirar um pouco de história verdadeira.
O ar que entra nos teus pulmões hoje já foi, há 5000 anos, o sopro divino de Shu.
Respira fundo.
E lembra-te: estás a respirar África. 🌬️
© Africanahistoria.com – O teu portal para a história real de África.








