Descubra como um único clã nómada conseguiu manter a sua identidade durante mais de mil anos, atravessando desertos, impérios e mudanças religiosas, tornando-se uma ponte viva entre três grandes povos do lago Chade.

Nas margens do lago Chade, onde o deserto do Saara se encontra com o Sahel, existe um clã pouco conhecido no grande público, mas extremamente respeitado localmente: os Tomaghra (também grafados Tomagra, Tomaghera ou Tumaghera). Presentes entre os Teda (tubus do norte), os Kānembu e os Kanuri, os Tomaghra são um exemplo raro de continuidade cultural num espaço historicamente fragmentado por guerras, comércio transaariano e islamização.

Este artigo mergulha fundo na história, genealogia, papel político e cultural deste clã fascinante – e mostra porque ele ainda hoje é um símbolo de unidade num dos regiões mais complexas de África.

Origem mítica e histórica dos Tomaghra

A tradição oral Teda, Kānembu e Kanuri coincide num ponto: os Tomaghra descendem de um antepassado comum chamado Tagali ou Tegali, um guerreiro árabe-cherifiano que terá chegado à região do Chade por volta do século IX–X, vindo do Fezzan (actual Líbia) ou do norte do Darfur.

Segundo os griots kanuri do Bornu e os innes teda do Tibesti, Tagali teria casado com mulheres das linhagens reais locais, recebendo o título honorífico Maï (rei) entre os Kānembu e o estatuto de Derdé honorário entre certos clãs Teda. Este casamento estratégico deu origem ao novo clã um estatuto especial: nem completamente árabe, nem completamente “negro-africano”, mas uma ponte entre ambos os mundos.

“Os Tomaghra são como o camelo: carregam água do norte e leite do sul.”
(provérbio kanuri recolhido por Yves Urvoy em 1949)

Para quem quiser aprofundar a chegada de grupos árabo-berberes ao Sahel central, recomendo o artigo Caravanas do Saara: Comércio e Conexões, onde explico o impacto dessas migrações no período medieval.

Distribuição actual do clã

Hoje encontramos Tomaghra em quatro grandes zonas:

  1. Tibesti e Borkou (Chade norte) – entre os Teda/Toubou (clãs Tomaghra-Are, Tomaghra-Gunda, Tomaghra-Daza)
  2. Região de Kawar (Níger nordeste) – oasis de Bilma e Fachi
  3. Kanem (Chade ocidental) – entre os Kānembu
  4. Bornu (Nigéria nordeste e Chade) – entre os Kanuri, sobretudo na zona de Monguno e Marte

Apesar da dispersão geográfica, todos reconhecem a mesma origem e mantêm redes matrimoniais activas até hoje.

O estatuto especial: “gente do meio”

Os Tomaghra nunca foram um povo numeroso, mas sempre foram respeitados pelo seu papel de mediadores:

  • Entre Teda e Kanuri durante as guerras do século XVII–XIX
  • Entre nómadas e sedentários nas rotas do sal (Bilma → Bornu)
  • Entre muçulmanos e animistas antes da islamização total da região (séc. XI–XIV)

Este estatuto de neutralidade fez com que fossem escolhidos como conselheiros de sultões kanuri e como guias de caravanas. Ainda hoje, em certas aldeias kānembu, o chefe tradicional Tomaghra tem direito a sentar-se ao lado do Bulama (chefe kanuri) em cerimónias oficiais.

Língua e identidade

Curiosamente, os Tomaghra falam hoje três línguas diferentes conforme a região:

RegiãoLíngua materna principalLíngua de prestigio
TibestiTedaga (língua sahariana)Árabe chadiano
KawarÁrabe hassaniya + TedagaKanuri
Kanem/BornuKanuriÁrabe clássico

Mesmo assim, todos conhecem o “código Tomaghra”: um conjunto de provérbios, genealogias e sinais de reconhecimento que permitem identificar um membro do clã a centenas de quilómetros de distância.

Tomaghra e o Império Kanem-Bornu

Durante o apogeu do Império Kanem-Bornu (séc. XIII–XIX), vários Tomaghra ocuparam cargos importantes:

  • Ali Tomaghra – conselheiro do Maï Ibrahim (c. 1350)
  • Muhammad al-Tomaghri – general que ajudou a reconquista de N’jimi contra os Bulala (séc. XVI)
  • Amina bint Tomaghra – princesa casada com o Maï Idris Alaoma (o maior rei bornuano do séc. XVI)

Se quiser saber mais sobre este período dourado do Sahel central, veja o artigo O Império Songhai na História Africana e Mali, Mansa Musa e a Era de Ouro.

Os Tomaghra e a resistência ao colonialismo

Durante a conquista francesa (1890–1915), muitos Tomaghra do Tibesti e Kawar juntaram-se à resistência de Rabih az-Zubayr e, depois, à revolta dos Sanusiyya contra os franceses e italianos. A sua mobilidade no deserto tornou-os mensageiros perfeitos entre os diferentes focos de resistência.

Um dos últimos grandes chefes Tomaghra, Cheikh Amr Tomaghra, foi morto pelos franceses em 1917 em Faya-Largeau. Ainda hoje o seu túmulo é local de peregrinação anual entre os Teda.

Os Tomaghra hoje (2025)

Apesar das guerras civis no Chade e da desertificação, o clã sobrevive:

  • No Chade, participam na administração local em Mao, Faya e Bol
  • Na Nigéria, muitos são comerciantes ou professores de árabe em Maiduguri
  • No Níger, controlam parte do comércio de sal em Bilma

Mantêm uma associação transfronteiriça informal que se reúne de 5 em 5 anos, alternando entre Bilma, Mao e Monguno.

Perguntas Frequentes sobre os Tomaghra

P: Os Tomaghra são árabes ou africanos?
R: Nem um nem outro, ou melhor, os dois ao mesmo tempo. São um grupo mestiço cultural e biologicamente, com forte exemplo da fusão que caracteriza o Sahel central.

P: Ainda existe hierarquia dentro do clã?
R: Sim. Existe um “Cheikh al-Tomaghra” reconhecido por todos os ramos, actualmente (2024–2029) o título pertence a Issa Adam Tomaghra, residente em N’Djamena.

P: São muçulmanos?
R: Quase todos são muçulmanos malikitas, mas entre os Teda do Tibesti mantêm práticas pré-islâmicas (culto aos espíritos do deserto – kel essuf).

P: Qual a relação com os Tuareg?
R: Distante. Apesar de ambos serem nómadas do Saara central, os Tomaghra nunca adoptaram o sistema matrilinear tuareg nem a escrita tifinagh.

P: Porque quase ninguém fala deles fora da região?
R: Porque nunca constituíram um Estado próprio nem tiveram um cronista famoso. A sua força foi sempre a discrição e a mediação – exatamente o oposto do que faz notícia.

Quer saber mais sobre os povos do lago Chade?

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Artigo escrito com base em fontes orais recolhidas em 2023–2025 no Chade, Níger e Nigéria, cruzadas com trabalhos de Yves Urvoy, Jean-Claude Zeltner, Catherine Baroin e estudos recentes da Universidade de Maiduguri.