Os Sanhādja não foram apenas um povo. Foram o esqueleto sobre o qual se construiu grande parte da história medieval do Magrebe e do Saara ocidental. Desde o século VIII até à ascensão dos Almorávidas e, mais tarde, à cristalização das grandes confederações tuaregues, este vasto grupo berbere marcou o deserto com caravanas, guerra e uma identidade que ainda hoje resiste.

Os Sanhādja (em berbere ⵉⵙⵏⵀⴰⵊⵏ / Isenhaǧen; em árabe صنهاجة) pertencem ao grande ramo berbere Branes (ou Zenata-Sanhādja-Masmuda). Dividiam-se em dezenas de cabilas (tribos), algumas nómadas cobertas pelo véu azul-indigente (os futuros Tuaregues), outras sedentarizadas nas montanhas do Magrebe central e ocidental.

Origens: Do Neolítico saariano à islamização

A presença berbere no Norte de África remonta ao período pré-histórico. Como exploramos no artigo África: O Berço da Humanidade e em Evolução Humana: Como a África Moldou, os antepassados dos povos berberes já habitavam o Saara verde do Holocénico húmido (9000–3000 a.C.), período em que o deserto era savana atravessada por rios.

Com a desertificação progressiva (ver Impacto da Mudança Climática na Pré-História), muitos grupos foram empurrados para norte (Atlas) ou refugiaram-se nos maciços montanhosos e oásis. Os antepassados dos Sanhādja pertencem a este segundo grupo.

A islamização, a partir do século VIII, encontrou nos Sanhādja uma resistência inicial seguida de adesão fervorosa. Várias cabilas tornaram-se pilares do kharijismo e, depois, do malikismo sunita.

As grandes confederações Sanhādja

1. Sanhādja do Magrebe central (Argélia/Marrocos)

  • Lamṭūna – a mais famosa: foram eles que, liderados por Abū Bakr ibn ʿUmar e mais tarde por Yūsuf ibn Tāšfīn, fundaram o movimento almorávida.
  • Massūfa – mestres das rotas transaarianas de sal e ouro (ver Caravanas do Saara: Comércio e Conexões).
  • Gudāla – dominavam o actual Mauritânia e sul de Marrocos.

2. Sanhādja do Saara (futuros Tuaregues)

  • Iznāgen (ou Iznaten)
  • **Aznague)
  • Awellimiden
  • Kel Ahaggar
  • Kel Aïr
  • Iwellemmedan

Estas últimas cabilas são os verdadeiros antepassados diretos dos atuais Tuaregues (Kel Tamasheq), que ainda hoje se reconhecem como “filhos dos Sanhādja”.

Os Almorávidas: quando os Sanhādja conquistaram meio mundo conhecido

No século XI, os Lamṭūna, sob comando de Yahya ibn Ibrahim e do pregador ʿAbd Allāh ibn Yāsīn, iniciaram uma jihād que resultou na criação do maior império berbere da história: o Império Almorávida (1040–1147). Conquistaram Marrocos, fundaram Marraquexe, invadiram a Península Ibérica (batalha de Zalaca/Sagrajas, 1086) e controlaram o comércio do ouro até Sijilmassa e Awdaghust.

“Os homens de véu azul atravessaram o deserto como um vento de fogo e abalaram al-Andalus.”
— Crónica anónima andalusí

Para saber mais sobre este período fulgurante, recomendo Mali, Mansa Musa e a Era de Ouro e Comércio Transaariano: Rotas do Deserto.

Do apogeu à fragmentação

Após a queda dos Almorávidas (derrotados pelos Almóadas em 1147), os Sanhādja perderam a unidade política, mas não a influência cultural e comercial. As cabilas do Saara central e meridional mantiveram-se praticamente independentes, organizando-se em confederações tribais que ainda hoje existem:

  • Confederação dos Iwellemmedan (Níger/Mali)
  • Kel Ahaggar (Argélia)
  • Kel Aïr (Níger)
  • Kel Adagh (Mali)

Estas são as grandes “cabilas-mãe” tuaregues atuais.

Organização social e cultura Sanhādja/Tuaregue

  • Matrilinearidade parcial – ao contrário da maioria dos povos muçulmanos, a descendência e herança em muitas cabilas tuaregues passa pela linha materna (o famoso “homem pertence à tenda da mãe”).
  • Tifinagh – alfabeto próprio ainda em uso (ver História da Escrita Africana).
  • Tagelmust – o véu indigo que dá origem ao nome “homens azuis”.
  • Ineslemen – classe nobre religiosa (equivalente aos marabus).
  • Imghad – guerreiros vassalos.
  • Iklan – camada servil (infelizmente, a escravatura existiu até muito tarde).

Os Sanhādja na actualidade

Hoje, os descendentes dos Sanhādja são:

  • Tuaregues do Mali, Níger, Argélia, Líbia e Burkina Faso (cerca de 3–4 milhões de falantes de tamasheq/tamajaq).
  • Grupos berberes Zenagui em Marrocos e Argélia que ainda se reclamam Sanhādja.
  • Comunidades na Mauritânia (es (especialmente os Trarza e Brakna).

Apesar das revoltas tuaregues de 1990–1995 e 2012, a cultura resiste com força impressionante.

Perguntas Frequentes sobre os Sanhādja e Tuaregues

P: Os Tuaregues são todos Sanhādja?
R: Não todos. Há tuaregues que pertencem ao grupo berbere Zenata (ex.: Kel Tademaket), mas a grande maioria das confederações históricas e atuais descende dos Sanhādja.

P: Porque usam véu os homens e não as mulheres?
R: O tagelmust protege do sol e da areia, mas também é sinal de maturidade masculina. A tradição diz que o homem cobre o rosto a partir da puberdade para “não mostrar fraqueza”.

P: Ainda existem escravos entre os Tuaregues?
R: Oficialmente abolida no Mali em 1905 e no Níger apenas em 2004 (!), a prática da “descendência servil” (bella, haratin) ainda persiste em algumas zonas, embora ilegal e em declínio.

P: Qual a relação com os Almorávidas?
R: Os fundadores do movimento almorávida eram Lamṭūna, uma cabila Sanhādja. Por isso muitos tuaregues se orgulham de dizer “nós já governámos Marrocos e Espanha”.

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Porque a verdadeira história da África não começa com a chegada dos europeus – começa muito, muito antes, nas areias do Saara, sob o véu azul dos filhos dos Sanhādja.

Tamasheq: Ekker a tessas n tafsut
(“Que o teu caminho seja longo e próspero” – saudação tuaregue)