Descubra como uma pequena colónia fenícia se transformou na maior potência naval do Mediterrâneo Mediterrâneo antigo e deixou marcas que ainda hoje sentimos – da tecnologia militar à própria fundação de Roma como sua grande rival.
Cartago não foi apenas uma cidade. Foi um império comercial, militar e cultural que dominou o Mediterrâneo ocidental durante quase sete séculos. Fundada por navegadores fenícios por volta de 814 a.C., segundo a tradição liderados pela lendária rainha Dido (Elissa), a cidade de Qart-ḥadašt (“cidade nova”) tornou-se sinónimo de riqueza, inovação e resistência. O seu legado atravessa o tempo: influenciou Roma, espalhou o alfabeto, revolucionou a construção naval e deixou monumentos que ainda impressionam.
Neste artigo mergulhamos fundo na ascensão, apogeu e queda de Cartago – e, sobretudo, no que ficou depois dela.
As Origens Fenícias: O Berço Comercial de Cartago
Tudo começou com os fenícios, esse povo marítimo que já dominava o comércio no Levante. Por volta do século IX a.C., Tiro enviou colonos para o norte de África em busca de novas rotas e portos seguros. A localização escolhida – uma península na atual Tunísia, com dois portos naturais excelentes – era perfeita.
“Cartago foi fundada por fenícios de Tiro, liderados pela princesa Elissa, que fugia do irmão Pigmalião.”
– Justino, Epítome de Pompeu Trogo
A cidade cresceu rapidamente graças ao comércio de rotas comerciais que ligavam a Península Ibérica (prata e estanho), Sardenha, Sicília e o próprio Egito Antigo. Já no século VI a.C., Cartago era tão poderosa que se tornou independente de Tiro e começou a fundar as suas próprias colónias.
Se quiser saber mais sobre os fenícios e o seu génio marítimo, veja o artigo Cartago e Fenícios e Comércio e Cultura dos Fenícios.
O Apogeu: Quando Cartago Dominou o Mar
Entre os séculos V e III a.C., Cartago era a maior potência naval do mundo conhecido. O seu porto militar circular (cothon) – uma obra-prima de engenharia – podia abrigar mais de 200 navios de guerra. Os cartagineses inventaram o quinquerreme (navio com cinco ordens de remos) e usavam o “corvus” (ponte de assalto) que mais tarde Roma copiou.
A economia era impressionantemente diversificada:
- Exportação de tecidos tingidos de púrpura de Tiro (o famoso “púrpura tirio”)
- Comércio de prata da Península Ibérica
- Produção agrícola intensiva no interior (o “celeiro de Roma” antes de Roma existir)
- Monopólio do comércio de estanho da Cornualha (essencial para o bronze)
Os generais da família Barca marcaram esta era dourada. Hamilcar, Asdrúbal e, sobretudo, Aníbal – o maior pesadelo de Roma.
Para aprofundar o tema do comércio antigo, recomendo Grandes Rotas de Comércio da Antiguidade e Caravanas do Saara – Comércio e Conexões.
A Cultura Cartaginesa: Muito Mais que Sacrifícios Humanos
A imagem de Cartago como uma sociedade cruel que sacrificava crianças deve-se sobretudo à propaganda romana. Escavações modernas mostram que o tophet de Cartago era um cemitério de crianças mortas naturalmente ou sacrificadas em momentos de crise extrema – prática que, infelizmente, também existia noutras culturas mediterrâneas.
O que realmente impressiona é a sofisticação:
- Escrita própria (derivada do alfabeto fenício – o mesmo que deu origem ao grego, latino e, portanto, ao nosso)
- Agricultura científica (o tratado de Mago, em 28 volumes, foi traduzido por ordem do Senado romano após a destruição da cidade)
- Mulheres com elevado estatuto social (Sophonisba, filhas de reis que negociavam alianças)
- Religião sincrética que misturava Baal-Hammon, Tanit, Melqart e, mais tarde, divindades gregas
Quer saber mais sobre o papel da mulher na antiguidade africana? Veja As Mulheres Poderosas da Antiguidade e O Papel da Mulher na Sociedade Antiga.
As Guerras Púnicas: O Choque de Dois Mundos
Foram três guerras (264–146 a.C.) que mudaram o Mediterrâneo para sempre.
Primeira Guerra Púnica (264–241 a.C.)
Luta pelo controlo da Sicília. Roma, potência terrestre, aprendeu a construir frotas copiando um quinquerreme cartaginês encalhado. Vitória romana, mas a custo altíssimo.
Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.)
A mais épica. Aníbal atravessa os Alpes com elefantes, vence em Trásimeno e Canas (a maior derrota táctica da história romana), mas não marcha sobre Roma. Cipião Africano derrota-o em Zama (202 a.C.). Cartago perde Espanha e a frota.
Terceira Guerra Púnica (149–146 a.C.)
Roma, assustada com a rápida recuperação económica cartaginesa, inventa um casus belli e arrasa completamente a cidade. “Delenda est Carthago” (“Cartago deve ser destruída”) – a frase de Catão, o Velho, tornou-se realidade.
Após 700 anos de existência, Cartago foi queimada, o solo salgado (segundo a lenda) e os sobreviventes vendidos como escravos.
O Legado Invisível (mas Gigantesco) de Cartago
Roma venceu, mas absorveu:
- Técnicas navais (o porto militar de Cartago inspirou o de Ostia)
- Agricultura intensiva do norte de África que alimentou Roma durante séculos
- O alfabeto púnico continuou a ser usado na Numídia até ao século II d.C.
- Figuras como Santo Agostinho (nascido em Tagaste, atual Argélia) e o imperador Septímio Severo (nascido em Leptis Magna) eram de origem púnica
A própria cidade renasceu como colónia romana no século I a.C. e tornou-se uma das maiores do Império, só atrás de Roma, Alexandria e Antioquia.
Veja mais sobre este renascimento em A África que Transformou o Mundo e Civilizações Africanas Revolucionaram.
Cartago Hoje: O Que Restou
- O tophet e os portos púnicos (Património Mundial da UNESCO)
- O Museu Nacional de Cartago
- Bairros romanos sobrepostos às ruínas púnicas em Byrsa
- Milhares de estelas, joias e objetos no Museu do Bardo (Tunes)
E, sobretudo, uma lição: mesmo as maiores potências podem cair, mas a sua influência permanece.
Explore o artigo completo sobre a cidade em Cartago – Cidade que Conquistou o Mar
- – Veja também A Cultura e a Religião dos Cartagineses
Perguntas Frequentes sobre Cartago
1. Cartago realmente sacrificava crianças?
As evidências arqueológicas mostram que sim, em momentos de grave crise, mas não era prática corrente nem exclusiva de Cartago. Roma e outras culturas também o fizeram.
2. Aníbal conseguiu mesmo atravessar os Alpes com elefantes?
Sim. Perdeu quase todos, mas cerca de 20–30 elefantes chegaram a Itália e participaram na batalha do Trébia.
3. Porque Roma destruiu Cartago se já a tinha derrotado?
Medo. Em menos de 50 anos Cartago recuperara economicamente. O Senado romano decidiu eliminar de vez a concorrência.
4. Cartago era uma civilização “africana”?
Sim e não. Fundada por fenícios (povo semita do Levante), mas ao longo dos séculos integrou líbios, berberes, númidas e até gregos, criando uma identidade própria norte-africana.
5. O que significa o símbolo de Tanit?
O famoso “sinal de Tanit” (triângulo com círculo e linhas horizontais) ainda é usado hoje na joalharia tunisina como símbolo de proteção.
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Porque a História de África não começa com a chegada dos europeus – começa há milhões de anos, e Cartago é apenas um dos seus capítulos mais brilhantes.
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Fontes principais consultadas:
- Serge Lancel, Carthage: A History
- Richard Miles, Carthage Must Be Destroyed
- Sabatino Moscati, Il mondo dei Fenici
- UNESCO – Carthage archaeological site








